
NOITE DE AUTÓGRAFOS
Ivan Ângelo
A leitora, vistosa, usando óculos escuros num ambiente em que não eram necessários, se posta diante do autor sentado do outro lado da mesa de autógrafos e estende-lhe o livro, junto com uma pergunta:
- O que é crônica?
O escritor considera responder com a célebre tirada de Rubem Braga, “se não é aguda, é crônica”, mas se contém, temendo que ela não goste da brincadeira. (...) Responde com aquele jeito de quem falou disso algumas vezes:
- É um texto de escritor, necessariamente de escritor, não de jornalista, que a imprensa usa para pôr um pouco de lirismo, de leveza e de emoção no meio daquelas páginas e páginas de dados objetivos, informações, gráficos, notícias... É coisa efêmera: jornal dura um dia, revista dura uma semana.
Já se prepara para escrever a dedicatória e ela volta a perguntar:
- E o livro de crônicas, então?
Ele olha a fila, constrangido. Escreve algo brevíssimo, assina e devolve o livro à leitora (...). Ela recebe o volume e não se vai, esperando a resposta. Ele abrevia, irônico:
- É a crônica tentando escapar da reciclagem do papel. Ela fica com ambição de estante, pretensiosa, quer status literário. Ou então pretensioso é o autor, que acha que ela merece ser salva e promovida. (...)
- Mais respeito. A crônica é a nossa última reserva de estilo.
(Veja São Paulo, São Paulo, 25/07/2012, p. 170.)
efêmero: de pouca duração; passageiro, transitório.
A certa altura do diálogo, a leitora pergunta ao escritor que dava autógrafos:
“- E o livro de crônicas, então?”
a) A pergunta da leitora incide sobre uma das características do gênero crônica mencionadas pelo escritor. Explique que característica é esta.
b) Explique o funcionamento da palavra então na pergunta em questão, considerando o sentido que esta pergunta expressa.
Espera-se que o candidato explique que a característica da crônica sobre a qual a pergunta da leitora incide é a transitoriedade desse gênero, decorrente da relação que esse tipo de texto estabelece com os fatos do cotidiano e com eventos contemporâneos, em função de ser publicado normalmente em jornal e constituir uma leitura rápida, em suportes nos quais se leem outros tipos de texto sem pretensão literária. A pergunta também se presta ao exame de outro aspecto importante do processo de leitura, que envolve necessariamente o domínio do sistema linguístico, especialmente de elementos da gramática cujo funcionamento se dá sobretudo no plano discursivo. Assim, espera-se que o candidato compreenda o funcionamento do operador então e seja capaz de descrever esse funcionamento. Tomando-se o enunciado no plano proposicional, temos uma proposição, com forte apelo retórico, que não se encontra completamente explícita, da qual o operador então faz parte: “se a crônica é, como afirma o cronista, esse gênero efêmero e destinado a um consumo rápido, a uma leitura superficial, então por que colocá-la em livro, que é um suporte destinado à perenidade das bibliotecas?” A palavra então funciona, assim, no enunciado, como um operador de conclusão, colocado numa pergunta em que a conclusão de um raciocínio é objeto de dúvida. É isto que torna possível tomar – já no plano enunciativo - o operador então como um marcador de contradição, contestação, como se a leitora dissesse: “O livro de crônicas não seria um paradoxo?”.
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