
O poema abaixo pertence ao Cancioneiro de Fernando Pessoa.
Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um vôo de ave
E me entristeço!
Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?
Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade
Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh’alma alheia
Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do vôo suave
Dentro em meu ser.
* Amavio: feitiço, encanto
(Fernando Pessoa, Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995, p.138).
a) Identifique o recurso lingüístico que representa a ave tanto no plano sonoro quanto no imagético.
b) Que relação o eu lírico estabelece entre a tristeza e a liberdade?
c) Interprete o fato de que as três interrogações (do verso 5 ao 11) são respondidas, a partir do verso 12, em uma única e longa frase.
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