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São Paulo UNESP 2009.1 Questão: 61 Geografia Geopolítica 

A retirada da Laguna
Formação de um corpo de exército incumbido de atuar, pelo norte,
no alto Paraguai – Distâncias e dificuldades de organização.
Para dar uma idéia aproximada dos lugares onde ocorreram, em
1867, os acontecimentos relatados a seguir, é necessário lembrar que
a República do Paraguai, o Estado mais central da América do Sul,
após invadir e atacar simultaneamente o Império do Brasil e a República
Argentina em fins de 1864, encontrava-se, decorridos dois
anos, reduzida a defender seu território, invadido ao sul pelas forças
conjuntas das duas potências aliadas, às quais se unira um pequeno
contingente de tropas fornecido pela República do Uruguai.
Do lado sul, o caudaloso Paraguai, um dos afluentes do rio da
Prata, oferecia um acesso mais fácil até a fortaleza de Humaitá,1
que se transformara, graças à sua posição especial, na chave de
todo o país, adquirindo, nesta guerra encarniçada, a importância
de Sebastopol na campanha da Criméia.2
Do lado da província brasileira de Mato Grosso, ao norte, as
operações eram infinitamente mais difíceis, não apenas porque
milhares de quilômetros a separam do litoral do Atlântico, onde se
concentram praticamente todos os recursos do Império do Brasil,
como também por causa das cheias do rio Paraguai, cuja porção
setentrional, ao atravessar regiões planas e baixas, transborda
anualmente e inunda grandes extensões de terra.
O plano de ataque mais natural, portanto, consistia em subir o rio
Paraguai, a partir da República Argentina, até o centro da Re pública
do Paraguai, e em descê-lo, pelo lado brasileiro, a partir da capital
de Mato Grosso, Cuiabá, que os paraguaios não haviam ocupado.
Esta combinação de dois esforços simultâneos teria sem dúvida
impedido a guerra de se arrastar por cinco anos consecutivos,
mas sua realização era extraordinariamente difícil, em razão das
enormes distâncias que teriam de ser percorridas: para se ter uma
idéia, basta relancear os olhos para o mapa da América do Sul e
para o interior em grande parte desabitado do Império do Brasil.
No momento em que começa esta narrativa, a atenção geral
das potências aliadas estava, pois, voltada quase exclusivamente
para o sul, onde se realizavam operações de guerra em torno de
Curupaiti e Humaitá. O plano primitivo fora praticamente abandonado,
ou, pelo menos, outra função não teria senão submeter
às mais terríveis provações um pequeno corpo de exército quase
perdido nos vastos espaços desertos do Brasil.
Em 1865, no início da guerra que o presidente do Paraguai,
López,3 sem outro motivo que a ambição pessoal, suscitara na
América do Sul, mal amparado no vão pretexto de manter o
equilíbrio internacional, o Brasil, obrigado a defender sua honra
e seus direitos, dispôs-se resolutamente à luta. A fim de enfrentar
o inimigo nos pontos onde fosse possível fazê-lo, ocorreu
naturalmente a todos o projeto de invadir o Paraguai pelo norte;
projetou-se uma expedição deste lado.
Infelizmente, este projeto de ação diversionária não foi realizado
nas proporções que sua importância requeria, com o agravante
de que os contingentes acessórios com os quais se contara
para aumentar o corpo de exército expedicionário, durante a longa
marcha através das províncias de São Paulo e de Minas Gerais,
falharam em grande parte ou desapareceram devido a uma epidemia
cruel de varíola, bem como às deserções que ela motivou.
O avanço foi lento: causas variadas, e sobretudo a dificuldade de
fornecimento de víveres, provocaram a demora.
Só em julho pôde a força expedicionária organizar-se em
Uberaba4, no alto Paraná (a partida do Rio de Janeiro ocorrera em
abril); contava então com um efetivo de cerca de 3 mil homens,
graças ao reforço de alguns batalhões que o coronel José Antônio
da Fonseca Galvão havia trazido de Ouro Preto.5
Não sendo esta força suficiente para tomar a ofensiva, o
comandante-em-chefe, Manoel Pedro Drago, conduziu-a para a
capital de Mato Grosso, onde esperava aumentá-la ainda mais.
Com esse intuito, o corpo expedicionário avançou para o noroeste
e atingiu as margens do rio Paranaíba, quando lhe chegaram então
despachos ministeriais com a ordem expressa de marchar diretamente
para o distrito de Miranda, ocupado pelo inimigo.
No ponto onde estávamos, esta ordem tinha como conseqüência
necessária obrigar-nos a descer de volta até o rio Coxim6 e em
seguida contornar a serra de Maracaju pela base ocidental, invadida
anualmente pelas águas do caudaloso Paraguai. A expedição estava
condenada a atravessar uma vasta região infectada pelas febres
palustres.
A força chegou ao Coxim7 no dia 20 de dezembro, sob o comando
do coronel Galvão, recém-nomeado comandante-em-chefe
e promovido, pouco depois, ao posto de brigadeiro.
Destituído de qualquer valor estratégico, o acampamento de
Coxim encontrava-se pelo menos a uma altitude que lhe garantia
a salubridade. Contudo, quando a enchente tomou os arredores e
o isolou, a tropa sofreu ali cruéis privações, inclusive fome.
Após longas hesitações, foi necessário, enfim, aventurarmonos
pelos pântanos pestilentos situados ao pé da serra; a coluna
ficou exposta inicialmente às febres, e uma das primeiras vítimas
foi seu infeliz chefe, que expirou às margens do rio Negro; em
seguida, arrastou-se depois penosamente até o povoado de Miranda.
8
Ali, uma epidemia climatérica de um novo tipo, a paralisia
reflexa,9 continuou a dizimar a tropa.
Quase dois anos haviam decorrido desde nossa partida do Rio
de Janeiro. Descrevêramos lentamente um imenso circuito de 2112
quilômetros; um terço de nossos homens perecera.
(VISCONDE DE TAUNAY (Alfredo d’Escragnolle-Taunay). A retirada da
Laguna – Episódio da guerra do Paraguai. Tradução de Sergio Medeiros.
São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 35 a 41.)

NOTAS DA EDIÇÃO ADOTADA
(1) Humaitá e Curupaiti, situadas às margens do rio Paraguai, constituíam o mais forte obstáculo fluvial no caminho da esquadra brasileira para atingir Assunção a partir de
Corrientes, na Argentina. Este complexo de empecilhos fluviais foi vencido em 15 de fevereiro de 1868. (Nota do tradutor) (2) Sebastopol, um importante porto militar da
Ucrânia, resistiu por onze meses, em 1854, ao ataque da França, Inglaterra e Turquia, durante a guerra da Criméia, que opôs os três países citados à Rússia czarista. (Nota
do tradutor) (3) Francisco Solano López (1826-1870) era filho do ditador Carlos Antonio López, que governou o Paraguai entre 1840 e 1862. Foi educado no Paraguai e na
Europa, e, ao retornar a seu país, passou a colaborar com o pai, tornando-se logo ministro da Guerra e da Marinha. Subiu ao poder em 1862. Em 1870, foi morto por tropas
brasileiras. (Nota do tradutor) (4) A 594 quilômetros do litoral do Atlântico. (Nota original do autor) (5) Capital da província de Minas Gerais. (Nota original do autor)
(6) Coxim é também o nome dado ao ponto de confluência dos rios Taquari e Coxim. (Nota do tradutor) (7) 18° 33’ 58” lat. S. – 32° 37’ 18” long. da ilha de Fer (astrônomos
portugueses). (Nota original do autor) (8) A 396 quilômetros ao sul do Coxim. Essas duas localidades pertencem à província de Mato Grosso e estão a cerca de 1522 quilômetros
do litoral. (Nota original do autor) (9) Este mal, de natureza palustre, é conhecido no Brasil sob o nome de beribéri. (Nota original do autor)

 

Com base na leitura do texto A retirada da Laguna, de Alfredo d’E.-Taunay, identifique o país agressor e aqueles que se uniram para lutar contra ele.

O que é possível inferir sobre o significado do trecho do sétimo parágrafo – …, mal amparado no vão pretexto de manter o equilíbrio internacional… – que, segundo o autor, explica os motivos da luta?



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