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Rio de Janeiro UFRJ 2011.1 Questão: 6 Português Geral 

 

TEXTO III

João, o telegrafista

João telegrafista.
Nunca mais que isso,
estaçãozinha pobre
havia mais árvores pássaros
que pessoas.
Só tinha coração urgente.
Embora sem nenhuma
promoção.
A bater a bater sua única
tecla.

Elíptico, como todo
telegrafista.

 

Cortando flores preposições
para encurtar palavras,
para ser breve na necessidade.
Conheceu Dalva uma Dalva
não alva sequer matutina
mas jambo, morena.
Que um dia fugiu – único
dia em que foi matutina –
para ir morar cidade grande
cheia luzes joias.
História viva, urgente.

Ah, inutilidade alfabeto Morse
nas mãos João telegrafista
procurar procurar Dalva
todo mundo servido telégrafo.
Ah, quando envelhece,
como é dolorosa urgência!
João telegrafista
nunca mais que isso, urgente.

 

II

Por suas mãos passou mundo,
mundo que o fez urgente,
elíptico, apressado, cifrado.
Passou preço do café.
Passou amor Eduardo
VIII, hoje duque Windsor.
Passou calma ingleses sob
chuva de fogo. Passou
sensação primeira bomba
voadora.

Passaram gafanhotos chineses,
flores catástrofes.
Mas, entre todas as coisas,
passou notícia casamento Dalva
com outro.
João telegrafista
o de coração urgente
não disse palavra, apenas
três andorinhas pretas
(sem a mais mínima sensação simbólica)
pousaram sobre
seu soluço telegráfico.

 

Um soluço sem endereço – Dalva – e urgente.

(RICARDO, Cassiano. Poemas Murais. São Paulo: José Olympio Editora, 1950.)



telegrafia s. f. 1 processo de telecomunicações que transmite textos escritos (telegramas) por meio de um código de sinais (código Morse), através de fios (...).

 

telegráfico adj. 1 relativo a telégrafo ou à telegrafia 2 transmitido ou recebido pelo telégrafo 3 relativo a telegrama; semelhante a um telegrama 4 fig. Muito conciso, condensado, muito lacônico (...)”. (HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Sales.

 

Dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.)

 

Código Morse. Primeiro estágio das comunicações digitais; uma forma de código binário em que todos os caracteres estão codificados como pontos e traços.

 

O escritor Gustavo Bernardo afirma que “toda linguagem é simultaneamente pletórica (abundante) e insuficiente”. (BERNARDO, G. O livro da metaficção. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010.)

 

Relacionando a afirmativa acima à coesão e à coerência, descreva, com foco em repetições e ausências, como se estabelece a conectividade textual no poema de Cassiano Ricardo.

 



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