WhatsApp do Vestiprovas
Compartilhar

Responder Questão:

Rio de Janeiro UFRJ 2010.1 Questão: 4 Português Geral 

TEXTO II

Homem ou mulher?

Quando menino, aos quatro ou cinco anos, vi o pintor da nossa casa vestido de mulher no Carnaval, dançando na rua, e aquilo foi um espanto, uma perturbação, uma maravilha. A idéia de que ele era as duas coisas, homem quando pintava a casa e mulher quando ia para a rua, pairou algum tempo em meu espírito. Imagino que aquele menino o tenha colocado na categoria dos seres e coisas encantados que povoam a infância, por sortilégio de alguma fada ou malefício de alguma bruxa. Como um sapo que vira príncipe ou uma abóbora que vira carruagem.

Quando, mais tarde, pude perceber formas mais complexas de papéis sociais e comportamento sexual, tentei entender por aí aquele mistério da infância. Continuava longe da verdade. Muitos carnavais que vieram depois e algumas leituras só me deram dados para perceber a constância e a antiguidade daquele gesto, e que ele representava uma transgressão. As explicações pareceram-me sempre mecânicas demais – isso aconteceu por causa daquilo – e não alcançaram a força que o encantamento teve na infância. (...)

Ele (o pintor da infância) gostava de cantar enquanto espalhava cores musicais pelas paredes; seu repertório falava de amores traídos e paixões sem remédio. Lembro-me de algumas das canções, que recuperei em discos. Na verdade, recuperava o pintor, em vinil. Uma delas: “Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou e em nome de Jesus um grande amor você jurou, jurou mas não cumpriu, fingiu e me enganou; pra mim você mentiu, pra Deus você pecou...”. Outra dizia: “Não queiras, meu amor, saber da mágoa que sinto quando a relembrar-te estou, atestam-te os meus olhos rasos d’água a dor que a tua ausência me causou”. Ou ainda: “Passaste hoje ao meu lado, vaidosa, de braço dado com outro que te encontrou...”. Minha mãe contou que a mulher dele tinha ido embora com outro e que ele bebia cachaça. Já não sei se ela disse exatamente nessa ordem.

Um dia mamãe falou: vamos ver o Carnaval. Naquela tarde de sol, por entre os carros do corso na avenida ele apareceu, para meu espanto, encantado em mulher. Peruca, batom, olhos e faces pintados, acrescentara uma pinta, levava aberta uma sombrinha de barbatana quebrada e cantava alegre uma música bem diferente daquelas outras: “Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar; dá a chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar”.

Hoje entendo-o melhor, embora eu esteja ainda longe da verdade: ali, como mulher, ele era outro homem.

(Texto adaptado de ANGELO, Ivan. In: WERNECK, H. (org.) Boa companhia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 89-91)

 

 

Observe o fragmento abaixo:

“Quando, mais tarde, pude perceber formas mais complexas de papéis sociais e comportamento sexual, tentei entender por aí aquele mistério da infância. Continuava longe da verdade.”

Levando em conta a percepção do narrador expressa no fragmento acima, diferencie o significado atribuído ao vocábulo “homem” no último parágrafo do texto II do significado que lhe é atribuído no primeiro parágrafo.

 

No primeiro parágrafo do texto II, o vocábulo “homem” é empregado com o significado de indivíduo do sexo masculino, enquanto, no último parágrafo, o significado do vocábulo perde o enquadramento de gênero/sexo e passa a remeter a pessoa, ser humano.



TEMPO NA QUESTÃO

Relógio00:00:00

Gráfico de barras Meu Desempenho

Português Geral

Total de Questões: ?

Respondidas: ? (0,00%)

Certas: ? (0,00%)

Erradas: ? (0,00%)

Somente usuários cadastrados!

Postar dúvida ou solução ...