
TEXTO VI
O ex-cineclubista
(João Gilberto Noll)
Aquele homem meio estrábico, ostentando um mau humor maior do que realmente poderia dedicar a quem lhe cruzasse o caminho e que agora entrava no cinema, numa segunda-feira à tarde, para assistir a um filme nem tão esperado, a não ser entre pingados amantes de cinematografias de cantões os mais exóticos, aquele homem, sim, sentou-se na sala de espera e chorou, simplesmente isso: chorou. Vieram lhe trazer um copo d´água logo afastado, alguém sentou-se ao lado e lhe perguntou se não passava bem, mas ele nada disse, rosnou, passou as narinas pela manga, levantou-se num ímpeto e assistiu ao melhor filme em muitos meses, só isso. Ao sair do cinema, chovia. Ficou sob a marquise, à espera da estiagem. Tão absorto no filme que se esqueceu de si. E não soube mais voltar.
O texto VI procura reproduzir na escrita uma característica da linguagem cinematográfica: “o filme, sob o ponto de vista formal, pode ser considerado como uma seqüência de espaços e tempos concretamente apresentados pela imagem.” (Enciclopédia Mirador-Internacional, s.v. cinema – 13.1.1).
Justifique a afirmativa, tomando por base a organização do plano sintático do texto.
A seqüência de espaços e tempos – antes e depois de assistir ao filme, dentro (1º e 2º períodos) e fora do cinema (do 3º ao 5º período) – manifesta-se na predominância de estruturas coordenadas, justapostas, sempre no passado, numa seqüência rápida de ações (rosnou, passou as narinas pelas mangas, levantou-se, assistiu ao filme), e com rupturas (aquele homem meio estrábico [...], aquele homem, sim, [...]). Esses elementos sintáticos são alguns dos recursos que procuram reproduzir, na escrita, a linguagem cinematográfica.
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