
TEXTO II
Deus quer otimismo
Procópio acordava cedinho, abria a janela, exclamava:
– Que dia maravilhoso! O dia mais belo da minha vida!
Às vezes, realmente, a manhã estava lindíssima, porém outras vezes a natureza mostrava-se carrancuda. Procópio nem reparava. Sua exclamação podia variar de forma, conservando a essência:
– Estupendo! Sol glorioso! Delícia de vida!
Choveu o mês inteiro e Procópio saudou as trinta e uma cordas-d’água com a jovialidade de sempre. Para ele não havia mau tempo. A família protestava contra a sua disposição fagueira e inalterável. A população erguia preces ao Senhor, rogando que parasse com o dilúvio. Um dia Procópio abriu a janela e foi levado pelas águas. Ia exclamando:
– Sublime! Agora é que sinto realmente a beleza do bom tempo integral! O azul é de Sèvres! Chove ouro líquido! Sou feliz!
Os outros, que não acreditavam nisto, submergiram, mas Procópio foi depositado na crista de um pico mais alto que o da Neblina, onde faz sol para sempre. Merecia.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Prosa seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.)
Observe a seguinte afirmativa:
“ (...) Sua exclamação podia variar de forma, conservando a essência: – Estupendo! Sol glorioso! Delícia de vida!”
Identifique a “essência” a que se refere o narrador e descreva cada uma das diferentes estruturas gramaticais que concretizam a variação “de forma”.
A essência a que se refere o narrador corresponde a uma visão positiva diante dos fatos. Quanto à variação de forma, a primeira expressão é constituída de um adjetivo (“estupendo”), a segunda, de um substantivo e um adjetivo (“sol glorioso”), e a terceira, de um substantivo mais locução adjetiva – preposição e substantivo (“delícia de vida”).
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