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Goiás UFG 2014.1 Questão: 50 História Geral 

Analise a fotografia e leia a carta a seguir.


Ilmo. Sr. Francisco de Souza

Aspiro boa saúde com a Exma. Família. Tendo eu frequentado uma fazenda sua deliberei, saudando-o em uma cartinha, pedir um cobrezinho. Basta dois contos de réis. Eu reconheço que o senhor não se sacrifica com isto e eu ficarei bem agradecido e não terei razão de lhe odiar nem também a gente de Virgulino terá esta razão. 

Sem mais do seu criado, obrigado.

Hortêncio, vulgo Arvoredo, rapaz de Virgulino.

A TARDE. 20 jan. 1931. In: Coletânea de documentos históricos
para o primeiro grau. São Paulo: SE/CENP, 1980, p. 51.

A fotografia e a carta apresentadas remetem ao cotidiano do Cangaço brasileiro, entre as décadas de 1920 e 1930. Nesse contexto, esse fenômeno social era interpretado pelo Estado brasileiro, que o combatia, como símbolo de desordem social. Diante do exposto, explique uma característica

a) associada ao Cangaço brasileiro, presente na carta;

b) atribuída, na fotografia, ao Cangaço e aos cangaceiros.

a) As lutas sociais desencadeadas nos sertões brasileiros, a exemplo do que ficou conhecido como Cangaço, dependem de características que podem ser apreendidas na carta, redigida por um cangaceiro do bando de Lampião. São características associadas ao fenômeno do Cangaço (o candidato deve explicar apenas uma característica):

• a concentração fundiária: o prestígio social e o poder político e econômico, especialmente durante a Primeira República, advinham da posse da terra (concentração fundiária). O cangaceiro escrevia para um fazendeiro, solicitando-lhe “um cobrezinho”, ao mesmo tempo em que indicava que ele não teria problemas com o pagamento. É fundamental registrar que o fenômeno do Cangaço relaciona-se diretamente à concentração fundiária e à exploração do campesinato;

• a violência nos sertões: na carta, há menção ao fato de que, uma vez pago o valor solicitado, não haveria motivo para ódio (“não terei razão de lhe odiar”). O cangaceiro anuncia que integra o bando de Lampião e, nas entrelinhas, expõe que o fazendeiro deveria guardar temor frente à ação violenta dos cangaceiros, no caso de não haver cumprimento do que era solicitado. Os cangaceiros invadiam também os espaços urbanos, cometendo saques e sem poupar aqueles que consideravam seus inimigos (oligarquias e Estado);

• a ação organizada: o Cangaço reunia homens que, desprovidos da terra, passam a atuar, violentamente, contra as oligarquias (qualquer “fazendeiro” era identificado com o poder oligárquico por ser a representação da concentração fundiária e da exploração dos camponeses) e o Estado (representado por qualquer instituição republicana, mais especificamente, a “volante”), desenvolvendo uma noção de justiça peculiar. Não à toa, Lampião se torna, ao longo do tempo, símbolo de coragem e valentia, assumindo uma aura heroica e sendo representação do “sertanejo forte” (basta recorrer à literatura de cordel, por exemplo). Na carta, a referência à “gente de Virgulino” evidencia a ação organizada do bando, composto de variados membros;

• a concepção de justiça do bando: quando o cangaceiro solicita “um cobrezinho” do fazendeiro, anunciando que “o senhor não se sacrifica com isto”, ele expressa que o fazendeiro – representante do latifúndio e da riqueza – não só pode (e deve) ser expropriado, como a expropriação não lhe faria diferença, não lhe retiraria as boas condições de vida. Há aqui uma concepção de justiça assentada no princípio de que era justo, em nome do bando, saquear as posses daqueles que eram considerados abastados. Não se trata de valorar essa concepção de justiça, positivando-a, mas sim compreendê-la em seu contexto. Acompanhando essa con- cepção, a carta consiste em intimidação que antecede ao ato (saque violento).

b) Na construção dessa imagem, há características que são exploradas e atribuídas ao Cangaço e aos cangaceiros, tal como segue (o candidato deverá explicar apenas uma característica):

• violência: os cangaceiros fotografados olham diretamente para a câmera, estão “paramentados”, ou seja, expõem suas roupas e suas armas, expressando não terem problema algum com a associação de sua imagem à violência. Sua imagem deve estar associada à violência, pois essa era concebida como necessária diante do latifúndio e da espoliação camponesa. Para essa compreensão, que justificava o Cangaço, a vida no sertão era dura, o cangaceiro era, então, a expressão do “sertanejo forte”;

• ação organizada: os cangaceiros posam para a fotografia e, em cada uma das fileiras, as armas estão sendo seguradas do mesmo modo. A imagem geral é a de um bando, não de um bando qualquer, mas de um bando organizado, coeso e homogêneo (as vestimentas, que são as mesmas, quase como um “uniforme”, colaboram para a imagem de coesão e homogeneidade). Nesse sentido, desqualifica-se a ideia de desordem social promovida pelo Estado, quando se atribui ao bando o oposto: o ordenamento, a disciplina e a liderança.

• masculinidade e/ou heroísmo: a fotografia apresenta apenas homens. Embora o bando contasse com a presença de mulheres em seu cotidiano e a mais famosa delas tenha sido Maria Bonita, é fundamental lembrar que essa mulher, quando aparece nas fotografias, se coloca na posição de “companheira de Lampião”. No caso da fotografia apresentada, a masculinidade domina o plano e a visualidade do registro. Dessa masculinidade explicitada advém o objetivo maior: explorar a valentia, a virilidade e o heroísmo desses cangaceiros.



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