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Bahia UFBA 2012.2 Questão: 58 Português Interpretação de textos 

I. A BENTO DE S.
Paris, Outubro.


               Meu caro Bento. — A tua ideia de fundar um jornal é daninha e execrável.

      Lançando, e em formato rico, com telegramas e crônicas, uma outra “dessas folhas
      impressas que aparecem todas as manhãs”, como diz tão assustada e pudicamente
      o Arcebispo de Paris, tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se
5 – aligeirem mais os juízos ligeiros, se exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais
      a Intolerância. Juízos ligeiros, Vaidade, Intolerância — eis três negros pecados
      sociais que, moralmente, matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas
      para os atiçar. Inconsciente como uma peste, espalhas sobre as almas a morte.
      Já decerto o Diabo está atirando mais brasa para debaixo da caldeira de pez, em
10 – que, depois do julgamento, recozerás e ganirás, meu Bento e meu réprobo!
                 Não penses que, moralista amargo, exagero, como qualquer S. João
      Crisóstomo. Considera antes como foi incontestavelmente a imprensa, que, com
      a sua maneira superficial, leviana a atabalhoada de tudo afirmar, de tudo julgar,
      mais enraizou no nosso tempo o funesto hábito dos juízos ligeiros. [...]

QUEIROZ, Eça de. Correspondência de Fradique Mendes. In: Obras de Eça
de Queiroz. Porto:
Lello&Irmão Editores, 1966. v. II, p. 1091.


II
. Minha querida madrinha,

               Desembarquei ontem em Luanda às costas de dois marinheiros cabindanos.
      Atirado para a praia, molhado e humilhado, logo ali me assaltou o sentimento
      inquietante de que havia deixado para trás o próprio mundo. Respirei o ar quente
      e húmido, cheirando a frutas e a cana-de-açúcar, e pouco a pouco comecei a
5 – perceber um outro odor, mais subtil, melancólico, como o de um corpo em
      decomposição. É a este cheiro, creio, que todos os viajantes se referem quando
      falam de África.
                                                                [...]
                A seguir mostrou-me o resto da casa, incluindo o quintal, largo e fundo,
       que está em parte ocupado com as habitações dos escravos e com armazéns
10 – cheios de marfim, de borracha e de cera. Presas aos altos muros veem-se cadeias
       de ferro e no centro do pátio existe mesmo um pelourinho que o coronel garante
       nunca ter utilizado. Ainda há pouco tempo, porém, este mesmo espaço servia
       para engordar negros trazidos do interior e em trânsito para o Brasil.

                 Já compreendeu, querida madrinha, como fez fortuna o senhor Arcénio de
15 – Carpo? Precisamente: comprando e vendendo a triste humanidade. Ou, como
        ele prefere dizer, “contribuindo para o crescimento do Brasil”. Ainda hoje, a
        acreditar no que se comenta em Luanda, continua a trabalhar para o crescimento
        do Brasil. [...]

AGUALUSA, José Eduardo. Nação crioula: a correspondência secreta de
Fradique Mendes: romance.
Rio de Janeiro: Gryphus, 2001. p. 11.


Com base nos fragmentos transcritos dos romances “Correspondência de Fradique Mendes”, de Eça de Queiroz, e “Nação Crioula”, de José Eduardo Agualusa, identifique a época e o espaço das narrativas e comente em que essas se aproximam e se distanciam.



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