
Só muito mais tarde é que Nando localizou no dia da lição do cla, cle, cli o
princípio da diluição da noz de egoísmo que no seu peito era a pequena mas
portentosa usina de atrair Francisca. No momento foi assim feito uma vertigem. A
salinha escura. O projetor jorrando luz na parede caiada, na mão de Francisca
5 que mudava um slide, no cabelo de Francisca. A luz do projetor de volta da parede
acendendo a cara dos camponeses. Repetindo por fora o trabalho de escultura
que a palavra fazia por dentro.
— Cla — disse o camponês.
— Classe clamor — disse Francisca.
10 — Cle.
— Clemência.
— Cli.
— Clima.
— Clu.
15 — Clube.
Francisca tirou um slide de fora da série. A palavra de duas letras mas
grande na parede. Vários camponeses leram juntos:
— Eu.
Outro slide e disseram:
20 — Re.
— Pensem em classe e clamor — disse Francisca enquanto colocava o
slide com o pronome e o verbo.
— Eu re — disse um camponês.
— Eu remo! — disse outro.
25 — Eu clamo — disse outro.
— Eu sei professora, eu sei dona Francisca. Eu RECLAMO!
Mesmo agora, já habituado a assistir e a ensinar ele próprio, Nando sentia
os olhos cheios d’água, quando diante de um camponês uma coisa ou uma ação
virava palavra. A criança tantas vezes vai fazer a coisa a comando da palavra.
30 Para aqueles camponeses tudo já existia menos a palavra.
— De — disse um camponês.
— Cla — disseram todos.
— Ra — disse um camponês.
— DECLARAÇÃO! — disse outro.
CALLADO, Antônio. QUARUP. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 355-357.
O fragmento transcrito, contextualizado no romance Quarup, evidencia a palavra enquanto arma ideológica transformadora da realidade brasileira. Apoiando-se em elementos da narrativa, explique como isso é trabalhado na obra.
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