
I.
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
5 – Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
10 – é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
15 – este orgulho, esta cabeça baixa...Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Confidência do Itabirano. In: MORICONI, Italo (Org.).
Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 97-98.
II.
Meu caminho pelo mundo
Eu mesmo traço
A Bahia já me deu
Régua e compasso
5 – Quem sabe de mim sou eu
Aquele abraço!
Pra você que me esqueceu
Ruuummm!
Aquele abraço!
10 – Alô Rio de Janeiro
Aquele abraço!
Todo o povo brasileiro
Aquele abraço!
GIL, Gilberto. Aquele abraço. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/gilberto-gil/
16138/7>. Acesso em: 23 ago. 2011. Fragmento.
Leia o poema de Carlos Drummond de Andrade e o fragmento da canção “Aquele abraço”, de Gilberto Gil, e teça um comentário sobre a presença da terra natal na configuração da vida de cada sujeito lírico.
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