
De outras e muitas grandezas vos poderíamos ilustrar, senhoras Amazonas, não fora
perlongar demasiado esta epístola; todavia, com afirmar-vos que esta é, por sem dúvida, a
mais bela cidade terráquea, muito hemos feito em favor destes homens de prol. Mas
cair-nos-íam as faces, si ocultáramos no siléncio, uma curiosidade original deste
5 – povo. Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam
numa língua e escrevem noutra. Assim chegado a estas plagas hospitalares, nos demos ao
trabalho de bem nos inteirarmos da etnologia da terra, e dentre muita surpresa e assombro
que se nos deparou, por certo não foi das menores tal originalidade linguística. Nas conversas
utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário, crasso de feição e impuro na
10 – vernaculidade, mas que não deixa de ter o seu sabor e força nas apóstrofes, e também nas
vozes do brincar. Destas e daquelas nos inteiramos, solícito; e nos será grata empresa vô-las
ensinarmos aí chegado. Mas si de tal desprezível língua se utilizam na conversação os naturais
desta terra, logo que tomam da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem
Latino, de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da
15 – vergiliana, no dizer dum panegirista, meigo idioma, que, com imperecível galhardia, se intitula:
língua de Camões! [...]
ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. 4. reimpressão. Rio de Janeiro: Agir, 2008. p. 107-108.
“multifário” (l. 9): que se apresenta sobre vários aspectos.
“crasso” (l. 9): grosseiro, grande.
“apóstrofes” (l. 10): interpretação direta e imprevista do orador, que se dirige a alguém.
A partir da realidade linguística explicitada por Macunaíma no texto “Carta para Icamiabas”, comente o ponto de vista dessa personagem sobre a língua no Brasil.
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