
Gato gato gato
Familiar aos cacos de vidro inofensivos, o gato caminhava molengamente por cima do muro.
O menino ia erguer-se, apanhar um graveto, respirar o hálito fresco do porão. Sua úmida
penumbra. Mas a presença do gato. O gato, que parou indeciso, o rabo na pachorra1 de uma
quase interrogação.
(...)
5 Gato - leu no silêncio da própria boca. Na palavra não cabe o gato, toda a verdade de um gato.
Aquele ali, ocioso, lento, emoliente2 - em cima do muro. As coisas aceitam a incompreensão
de um nome que não está cheio delas. Mas bicho, carece nomear direito: como rinoceronte, ou
girafa se tivesse mais uma sílaba para caber o pescoço comprido. Girarafa, girafafa. Gatimonha,
gatimanho3. Falta um nome completo, felinoso e peludo, ronronante4 de astúcias adormecidas.
10 O pisa-macio, as duas bandas de um gato. Pezinhos de um lado, pezinhos de outro, leve, bem
de leve para não machucar o silêncio de feltro nas mãos enluvadas.
O pelo do gato para alisar. Limpinho, o quente contato da mão no dorso, corcoveante5 e nodoso6
à carícia. O lânguido sono de morfinômano7. O marzinho de leite no pires e a língua secreta,
ágil. A ninhada de gatos, os trêmulos filhotes de olhos cerrados. O novelo, a bola de papel -
15 o menino e o gato brincando. Gato lúdico8. O gatorro, mais felino do que o cachorro é canino.
Gato persa, gatochim - o espirro do gato de olhos orientais. Gato de botas, as aristocráticas p
antufas do gato. A manha do gato, gatimanha: teve um gata miolenta9 em segredo chamada
Alemanha.
Em cima do muro, o gato recebeu o aviso da presença do menino. Ondulou de mansinho alguns
20 passos denunciados apenas na branda alavanca das ancas. Passos irreais, em cima do muro
eriçado10 de cacos de vidro. E o menino songa-monga11, quietinho, conspirando no quintal,
acomodado com o silêncio de todas as coisas.
No se olharem, o menino suspendeu a respiração, ameaçando de asfixia tudo que em torno dele
com ele respirava, num só sistema pulmonar. O translúcido manto de calma sobre o claustro12
25 dos quintais. O coração do menino batendo baixinho. O gato olhando o menino vegetalmente
nascendo do chão, como árvore desarmada e inofensiva. A insciência13, a inocência dos vegetais.
(...)
Menino e gato ronronando em harmonia com a pudica intimidade do quintal. Muro, menino,
cacos de vidro, gato, árvores, sol e céu azul: o milagre da comunicação perfeita. A comunhão
dentro de um mesmo barco. O que existe aqui, agora, lado a lado, navegando. A confidência
30 essencial prestes a exalar, e sempre adiada. E nunca. O gato, o menino, as coisas: a vida túmida14
e solidária. O teimoso segredo sem fala possível. Do muro ao menino, da pedra ao gato: como
a árvore e a sombra da árvore.
OTTO LARA RESENDE
BOSI, Alfredo. O conto brasileiro
contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1975.
1 pachorra - lentidão
2 emoliente - que amolece
3 gatimonha, gatimanho - movimento lento com as mãos
4 ronronante - referente ao ruído produzido pelo gato
5 corcoveante - ondulante
6 nodoso - cheio de nós
7 morfinômano - que gosta de dormir
8 lúdico - relativo à brincadeira, ao jogo
9 miolenta - combinação de miar + lenta
10 eriçado - arrepiado
11 songa-monga - dissimulado
12 claustro - pátio interior nos conventos
13 insciência - ignorância
14 túmida - inchada
O texto Gato gato gato faz um uso inovador da língua, de modo a explicitar a necessidade de inventar palavras. Num dos parágrafos do texto, o autor justifica a renovação vocabular por ele praticada. Com base nesse parágrafo, apresente a razão oferecida pelo autor para renovar o vocabulário. Transcreva duas palavras, retiradas desse mesmo parágrafo, que ilustrem essa justificativa.
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