
TEXTO I
Diálogo da relativa grandeza
Sentado no monte de lenha, as pernas abertas, os cotovelos nos joelhos, Doril examinava um
louva-deus pousado nas costas da mão. Ele queria que o bichinho voasse, ou pulasse, mas o
bichinho estava muito à vontade, vai ver que dormindo – ou pensando? Doril tocava-o com a
unha do dedo menor e ele nem nada, não dava confiança, parece que nem sentia; se Doril não
5 visse o leve pulsar de fole1 do pescoço – e só olhando bem é que se via – era capaz de dizer
que o pobrezinho estava morto, ou então que era um grilo de brinquedo, desses que as moças
pregam no vestido para enfeitar.
Entretido com o louva-deus, Doril não viu Diana chegar comendo um marmelo, fruta azeda
enjoada que só serve para ranger os dentes. Ela parou perto do monte de lenha e ficou
10 descascando o marmelo com os dentes mas sem jogar a casca fora, não queria perder nada.
Quando ela já tinha comido um bom pedaço da parte de cima e nada de Doril ligar, ela cuspiu
fora um pedaço de miolo com semente e falou:
- Está direitinho um macaco em galho de pau.
Doril olhou só com os olhos e revidou:
15 - Macaco é quem fala. Está até comendo banana.
- Marmelo é banana, besta?
- Não é mas serve.
Ficaram calados, cada um pensando por seu lado. Diana cuspiu mais um caroço.
- Sabe aquele livro de história que o Mirto ganhou?
20 - Que Mirto, seu. É Milllton. Mania!
- Mas sabe? Eu vou ganhar um igual. Tia Jura vai mindar.
- Não é mindar. É me-dar. Mas não é vantagem.
- Não é vantagem? É muita vantagem.
- Você já não leu o de Milton?
25 - Li mas quero ter. Pra guardar e ler de novo.
- Vantagem é ganhar outro. Diferente.
- Deferente eu não quero. Pode não ser bom.
- Como foi que você disse? Diz de novo?
- Já disse uma vez, chega.
30 - Você disse deferente.
- Foi não.
- Foi. Eu ouvi.
- Foi não.
- Foi.
35 - Foi não.
- Fooooi.
Continuariam até um se cansar e tapar o ouvido para ficar com a última palavra, se Diana não
tivesse tido a habilidade de se retirar logo que percebeu a dízima2. Com o pedacinho final do
marmelo entre os dedos ela chegou-se mais perto do irmão e disse:
40 - Gi! Matando louva-deus! Olhe o castigo!
- Eu estou matando, estou?
- Está judiando3. Ele morre.
- Eu estou judiando?
- Amolar um bicho tão pequenininho é o mesmo que judiar.
45 Doril não disse mais nada, qualquer coisa que ele dissesse ela aproveitaria para outra acusação.
Era difícil tapar a boca de Diana, ô menina renitente4. Ele preferiu continuar olhando o louva-
deus. Soprou-o de leve, ele encolheu-se e vergou o corpo para o lado do sopro, como faz uma
pessoa na ventania. O louva-deus estava no meio de uma tempestade de vento, dessas que
derrubam árvores e arrancam telhados e podem até levantar uma pessoa do chão. Doril era a
40 força que mandava a tempestade e que podia pará-la quando quisesse. Então ele era Deus?
Será que as nossas tempestades também são brincadeira? Será que quem manda elas olha para
nós como Doril estava olhando para o louva-deus? Será que somos pequenos para ele como
um gafanhoto é pequeno para nós, ou menores ainda? De que tamanho, comparando – do de
formiga? De piolho de galinha? Qual será o nosso tamanho mesmo, verdadeiro?
José J. Veiga
A máquina extraviada. Rio de
Janeiro: Editora Prelo, 1968.
1 fole − papo
2 dízima − refere-se à dízima periódica, algo sem fim
3 judiar − maltratar
4 renitente − teimosa
No último parágrafo, as perguntas formuladas dizem respeito à relatividade dos animais e dos homens quando comparados uns aos outros. Essa ideia de que nada é absoluto também pode ser percebida nos diálogos entre os personagens Doril e Diana. Transcreva, desses diálogos, duas passagens que exemplifiquem a percepção da relatividade retratada no conto. Justifique suas escolhas.
Duas das passagens e respectivas justificativas: − Macaco é quem fala. Está até comendo banana. Para responder à provocação de Diana, marmelo e banana se equivalem na visão de Doril. − Li mas quero ter. Pra guardar e ler de novo. O trecho mostra as opiniões diferentes sobre a leitura de Diana e de Doril. − Está judiando. Ele morre. A distinção entre amolar e judiar é indiferente para Diana.
− Marmelo é banana, besta?
− Não é mas serve.
− Vantagem é ganhar outro. Diferente.
− Deferente eu não quero. Pode não ser bom.
− Eu estou judiando?
− Amolar um bicho tão pequenininho é o mesmo que judiar.
TEMPO NA QUESTÃO
00:00:00
Meu Desempenho
Português Geral
Total de Questões: ?
Respondidas: ? (0,00%)
Certas: ? (0,00%)
Erradas: ? (0,00%)
Somente usuários cadastrados!