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Rio de Janeiro UERJ 2014.2 Questão: 41 Português Geral 

TEXTO I

Diálogo da relativa grandeza

         Sentado no monte de lenha, as pernas abertas, os cotovelos nos joelhos, Doril examinava um 
         louva-deus pousado nas costas da mão. Ele queria que o bichinho voasse, ou pulasse, mas o
         bichinho estava muito à vontade, vai ver que dormindo – ou pensando? Doril tocava-o com a
         unha do dedo menor e ele nem nada, não dava confiança, parece que nem sentia; se Doril não 
5        visse o leve pulsar de fole1 do pescoço – e só olhando bem é que se via – era capaz de dizer 
         que o pobrezinho estava morto, ou então que era um grilo de brinquedo, desses que as moças 
         pregam no vestido para enfeitar. 

         Entretido com o louva-deus, Doril não viu Diana chegar comendo um marmelo, fruta azeda
         enjoada que só serve para ranger os dentes. Ela parou perto do monte de lenha e ficou
10       descascando o marmelo com os dentes mas sem jogar a casca fora, não queria perder nada. 
         Quando ela já tinha comido um bom pedaço da parte de cima e nada de Doril ligar, ela cuspiu 
         fora um pedaço de miolo com semente e falou:
         - Está direitinho um macaco em galho de pau. 

         Doril olhou só com os olhos e revidou:

15       - Macaco é quem fala. Está até comendo banana.
         - Marmelo é banana, besta?
         - Não é mas serve. 

         Ficaram calados, cada um pensando por seu lado. Diana cuspiu mais um caroço.

         - Sabe aquele livro de história que o Mirto ganhou?
20       - Que Mirto, seu. É Milllton. Mania!
         - Mas sabe? Eu vou ganhar um igual. Tia Jura vai mindar.
         - Não é mindar. É me-dar. Mas não é vantagem.
         - Não é vantagem? É muita vantagem.
         - Você já não leu o de Milton?
25       - Li mas quero ter. Pra guardar e ler de novo.
         - Vantagem é ganhar outro. Diferente.
         - Deferente eu não quero. Pode não ser bom.
         - Como foi que você disse? Diz de novo?
         - Já disse uma vez, chega.
30       - Você disse deferente.
         - Foi não.
         - Foi. Eu ouvi.
         - Foi não.
         - Foi.
35       - Foi não.
         - Fooooi.
         Continuariam até um se cansar e tapar o ouvido para ficar com a última palavra, se Diana não
         tivesse tido a habilidade de se retirar logo que percebeu a dízima2. Com o pedacinho final do
         marmelo entre os dedos ela chegou-se mais perto do irmão e disse:
40       - Gi! Matando louva-deus! Olhe o castigo!
         - Eu estou matando, estou?
         - Está judiando3. Ele morre.
         - Eu estou judiando?
         - Amolar um bicho tão pequenininho é o mesmo que judiar.
45       Doril não disse mais nada, qualquer coisa que ele dissesse ela aproveitaria para outra acusação.
         Era difícil tapar a boca de Diana, ô menina renitente4. Ele preferiu continuar olhando o louva-
         deus. Soprou-o de leve, ele encolheu-se e vergou o corpo para o lado do sopro, como faz uma
         pessoa na ventania. O louva-deus estava no meio de uma tempestade de vento, dessas que
         derrubam árvores e arrancam telhados e podem até levantar uma pessoa do chão. Doril era a
40       força que mandava a tempestade e que podia pará-la quando quisesse. Então ele era Deus?
         Será que as nossas tempestades também são brincadeira? Será que quem manda elas olha para
         nós como Doril estava olhando para o louva-deus? Será que somos pequenos para ele como
         um gafanhoto é pequeno para nós, ou menores ainda? De que tamanho, comparando – do de
         formiga? De piolho de galinha? Qual será o nosso tamanho mesmo, verdadeiro?

José J. Veiga
A máquina extraviada. Rio de
Janeiro: Editora Prelo, 1968.

1 fole − papo
2 dízima − refere-se à dízima periódica, algo sem fim
3 judiar − maltratar
4 renitente − teimosa

Ele preferiu ficar olhando o louva-deus. Soprou-o de leve, ele encolheu-se e vergou o corpo para o lado do sopro, (l. 46-47)

Será que as nossas tempestades também são brincadeira? Será que quem manda elas olha para nós como Doril estava olhando para o louva-deus? (l. 51-52)

Nos dois trechos acima, há uma variação no envolvimento do narrador com a história que ele conta. Explique em que consiste essa variação. Em seguida, indique o recurso gramatical usado para expressá-la.

No primeiro fragmento, o narrador relata de maneira mais objetiva e distanciada.

No segundo, o pensamento do narrador se confunde com o do personagem.

Mudança da 3a para a 1a pessoa / uso dos pronomes “nossas” e “nós” no segundo trecho.



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