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Rio de Janeiro UERJ 2014.1 1ª Fase Questão: 13 Português Geral 

O tempo em que o mundo tinha a nossa idade


         Nesse entretempo, ele nos chamava para escutarmos seus imprevistos improvisos. As estórias 
         dele faziam o nosso lugarzinho crescer até ficar maior que o mundo. Nenhuma narração tinha fim, o 
         sono lhe apagava a boca antes do desfecho. Éramos nós que recolhíamos seu corpo dorminhoso. 
         Não lhe deitávamos dentro da casa: ele sempre recusara cama feita. Seu conceito era que a morte 
5       nos apanha deitados sobre a moleza de uma esteira. Leito dele era o puro chão, lugar onde a 
         chuva também gosta de deitar. Nós simplesmente lhe encostávamos na parede da casa. Ali ficava 
         até de manhã. Lhe encontrávamos coberto de formigas. Parece que os insectos gostavam do suor 
         docicado do velho Taímo. Ele nem sentia o corrupio do formigueiro em sua pele.

         − Chiças: transpiro mais que palmeira! 

10      Proferia tontices enquanto ia acordando. Nós lhe sacudíamos os infatigáveis bichos. Taímo nos 
         sacudia a nós, incomodado por lhe dedicarmos cuidados. 

         Meu pai sofria de sonhos, saía pela noite de olhos transabertos. Como dormia fora, nem dávamos 
         conta. Minha mãe, manhã seguinte, é que nos convocava:

         − Venham: papá teve um sonho! 

15      E nos juntávamos, todos completos, para escutar as verdades que lhe tinham sido reveladas. 
         Taímo recebia notícia do futuro por via dos antepassados. Dizia tantas previsões que nem havia 
         tempo de provar nenhuma. Eu me perguntava sobre a verdade daquelas visões do velho, 
         estorinhador como ele era.

         − Nem duvidem, avisava mamã, suspeitando-nos. 

20      E assim seguia nossa criancice, tempos afora. Nesses anos ainda tudo tinha sentido: a razão 
         deste mundo estava num outro mundo inexplicável. Os mais velhos faziam a ponte entre esses 
         dois mundos. (...)

Mia Couto
Terra sonâmbula. São Paulo, Cia das Letras, 2007.

 

Este texto é uma narrativa ficcional que se refere à própria ficção, o que caracteriza uma espécie de metalinguagem. A metalinguagem está melhor explicitada no seguinte trecho:



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