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Rio de Janeiro UERJ 2007.2 1ª Fase Questão: 6 Português Geral 

Olho as minhas mãos

      Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas
      Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las 
      Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar... 

      Fechá-las, de repente, 
5    Os dedos como pétalas carnívoras! 
      Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo, 
      Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento 

      Como tecem as teias as aranhas. 
      A que mundo 
10  Pertenço? 
      No mundo há pedras, baobás1 , panteras, 
      Águas cantarolantes, o vento ventando 
      E no alto as nuvens improvisando sem cessar. 
      Mas nada, disso tudo, diz: “existo”. 

15  Porque apenas existem... 
      Enquanto isto, 
      O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses 
      E, cheios de esperança e medo, 
      Oficiamos rituais, inventamos 
20  Palavras mágicas, 
      Fazemos 
      Poemas, pobres poemas 
      Que o vento 
      Mistura, confunde e dispersa no ar... 
25  Nem na estrela do céu nem na estrela do mar 
      Foi este o fim da Criação! 
      Mas, então, 
      Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos? 
      Quem faz – em mim – esta interrogação?

(QUINTANA, Mário. Apontamentos de história sobrenatural. Porto Alegre: Globo, 1984.)

Vocabulário:
1 baobá árvore comum em regiões secas, rica em reservas de água.

 

No poema de Mário Quintana, a sensação de deslocamento no mundo vivenciada pelo eu lírico origina-se da falta de explicação para existência. Essa problemática emerge a partir de uma inquietação relacionada aos seguintes temas:



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