
Os textos V e VI apresentam e discutem diferentes configurações da relação amorosa.
A) No texto V, o entrevistador se refere a duas maneiras de amar: uma em que o ser amado é objeto de consumo e outra em que o ser amado é objeto de uma idealização. Indique a qual destas formas de amar se contrapõe o trecho compreendido entre as linhas 23 e 27 de "Cantigas de Acordar Mulher" e justifique sua resposta.
B) No poema de Geir Campos, ao se dirigir à amada, o amante assume, nas duas últimas estrofes (l. 13 a 39), atitudes diferentes, que se evidenciam nos modos verbais empregados. Identifique esta diferença de atitudes relacionando-a aos modos verbais empregados.
Texto V
ENTREVISTA COM JURANDIR FREIRE COSTA
(Entrevistador) “Quando você fala do amor nos dias de hoje, parece identificar dois problemas
opostos e complementares: a) uma espécie de utilitarismo sexual, em que os indivíduos se
servem dos parceiros como quem consome produtos; b) o mito do amor romântico, que condena
ao sofrimento as pessoas que se sentem incapazes de encontrar o parceiro ideal. Como essas
05 duas distorções se combinam?
(Entrevistado) “De fato, o que parece ser antagônico, como você bem observou, no fundo é
complementar. Em função do crescente individualismo, queremos sempre descartar o que nos causa
problema, o que nos entedia, o que é incapaz de despertar fortes sensações ou grandes instantes de
êxtase. É assim que estamos aprendendo a ser felizes, como, em épocas anteriores, aprendemos a
10 ser felizes de outras formas. No entanto, na raiz desse utilitarismo tosco existe a promessa oculta de
que, um dia, iremos encontrar alguém que preencha todos esses requisitos, ou seja, alguém que, de
forma permanente, seja interessante, excitante, apaixonante, tolerante. Ora, esse alguém, todos
sabemos, não existe, exceto na ficção de nossos ideais. Mas, embora todos saibam que esse alguém
não existe, ninguém pensa em desistir de procurar, porque, sem ele, a vida perde todo atrativo. Eis
15 o impasse. Jamais encontramos a figura ideal de pessoa perfeita para amar, mas não podemos
dispensar a ilusão porque não sabemos inventar outras formas de satisfação pessoal, exceto a
obsessão amorosa e sexual.
No fundo, o triste resultado disso tudo é a descrença, a amargura, o ressentimento, a inveja e a
espera passiva e resignada do milagre amoroso – que quase nunca chega – ou da morte, que, com
20 certeza, chega! Isso, fique claro, não significa “condenar” ou “menosprezar” a emoção amorosa, o
que seria uma tolice. Isso significa constatar que a via de satisfação amorosa atual está condenada
ao impasse, até que venhamos a inventar novos modos de amar. É porque fomos habituados a
pensar que o “amor é único, universal, e sempre o mesmo de hoje em dia” que não encontramos
ânimo para imaginar novos modelos de realização amorosa. Ora, o que procurei mostrar no trabalho
25 é que isso, em absoluto, não é verdade. O romantismo amoroso é uma invenção cultural recente,
recentíssima, na história da humanidade. Não temos por que imaginar que ele é a “última forma
de amar” nem mesmo que seja a melhor.”
(Entrevista com Jurandir Freire Costa. In: CARVALHO, J. M. de et alii. Quatro autores em busca do Brasil. Entrevistas a José Geraldo Couto. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.)
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