
Texto II
CORDÕES
Oh! abre ala!
Que eu quero passá
Estrela d’Alva
Do Carnavá!
Era em plena rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertava-se, sufocada. Havia sujeitos
congestionados, forçando a passagem com os cotovelos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que
berravam pilhérias. A pletora da alegria punha desvarios em todas as faces. Era provável que do largo de São
Francisco à rua Direita dançassem vinte cordões e quarenta grupos, rufassem duzentos tambores, zabumbassem
5 cem bombos, gritassem cinqüenta mil pessoas. A rua convulsionava-se como se fosse fender, rebentar de
luxúria e de barulho. A atmosfera pesava como chumbo. No alto, arcos de gás besuntavam de uma luz de
açafrão as fachadas dos prédios. Nos estabelecimentos comerciais, nas redações dos jornais, as lâmpadas
elétricas despejavam sobre a multidão uma luz ácida e galvânica, que enlividescia e parecia convulsionar os
movimentos da turba, sob o panejamento multicolor das bandeiras que adejavam sob o esfarelar constante
10 dos confetti, que, como um irisamento do ar, caíam, voavam, rodopiavam. (...) Serpentinas riscavam o ar;
homens passavam empapados d’água, cheios de confetti; mulheres de chapéu de papel curvavam as nucas à
etila dos lança-perfumes, frases rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos, berros, uivos, guinchos. Um cheiro
estranho, misto de perfume barato, poeira, álcool, aquecia ainda mais o baixo instinto de promiscuidade. A rua
personalizava-se, tornava-se uma e parecia, toda ela policromada de serpentinas e confetti, arlequinar o pincho
15 da loucura e do deboche. Nós íamos indo, eu e o meu amigo, nesse pandemônio. Atrás de nós, sem colarinho,
de pijama, bufando, um grupo de rapazes acadêmicos, futuros diplomatas e futuras glórias nacionais, berrava
furioso a cantiga do dia, essas cantigas que só aparecem no Carnaval:
Há duas coisa
Que me faz chorá
É nó nas tripa
E bataião navá!
(RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.)
Entre as diversas formas de se classificar um texto descritivo, pode-se mencionar a descrição estática (por exemplo: a descrição dos móveis de uma sala de aula; a descrição de um carro) e a descrição dinâmica (por exemplo: a descrição de uma aula de ginástica; a descrição de uma ultrapassagem em uma corrida de Fórmula 1).
A. Sem transcrever partes do texto II, identifique em qual desses tipos de descrição se enquadra o texto de João do Rio e justifique sua resposta em uma frase completa.
B. Aponte, em até duas frases completas, uma semelhança entre o projeto do Realismo e o que o texto de João do Rio expressa.
A) Descrição dinâmica. Porque procura mostrar o movimento e a evolução de blocos carnavalescos pelas ruas B) O texto de João do Rio pretende retratar uma cena do carnaval de rua, em seus detalhes de movimento, alegria e confusão. Isto o aproxima do Realismo, que propunha descrever a vida tal como ela é.
da cidade.
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