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Rio de Janeiro UERJ 1999.2 Questão: 3 Português Sintaxe Colocação Pronominal 

O texto de Mário de Andrade utiliza palavras e expressões populares ao lado de termos e construções típicos da língua culta. Diferentemente, o texto de João do Rio é escrito de acordo com os padrões da língua culta, ficando a reprodução da língua popular restrita aos trechos das músicas carnavalescas.

A. “Fundir-se-ão” (texto I - verso 8) é um exemplo rigoroso de construção de língua culta. Explique por quê e reescreva esse exemplo de modo coloquial.

 

B. Lingüisticamente, “passá”, “carnavá”, “duas coisa”, “chorá”, “nas tripa”, “bataião” e “navá” (texto II - transcrições) são exemplos diferentes de variação popular.

Observe os versos do texto I:

“Eu colho nos dedos as rédeas ...” (verso 13)
“É bom gozar!” (verso 41)

Reescreva esses versos repetindo apenas os tipos de variação de linguagem expressos nas transcrições do texto II.

 

 

Texto I

CARNAVAL CARIOCA

     (...)
     Eu mesmo... Eu mesmo, Carnaval...
     Eu te levava uns olhos novos
     Pra serem lapidados em mil sensações bonitas,
     Meus lábios murmurejando de comoção assustada
5 Haviam de ter puríssimo destino...
     É que sou poeta
     E na banalidade larga dos meus cantos
     Fundir-se-ão de mãos dadas alegrias e tristuras, bens e males,
     Todas as coisas finitas 10 Em rondas aladas sobrenaturais.

     Ânsia heróica dos meus sentidos
     Pra acordar o segredo de seres e coisas.
     Eu colho nos dedos as rédeas que param o infrene das vidas,
     Sou o compasso que une todos os compassos,
15 E com a magia dos meus versos
     Criando ambientes longínquos e piedosos
     Transporto em realidades superiores
     A mesquinhez da realidade.
     Eu bailo em poemas, multicolorido!
20 Palhaço! Mago! Louco! Juiz! Criancinha!
     Sou dançarino brasileiro!
     Sou dançarino e danço!
     E nos meus passos conscientes
     Glorifico a verdade das coisas existentes
     Fixando os ecos e as miragens.
25 Sou um tupi tangendo um alaúde
     E a trágica mixórdia dos fenômenos terrestres
     Eu celestizo em eurritmias soberanas,
     Ôh encantamento da Poesia imortal!...

      Onde que andou minha missão de poeta, Carnaval?
30 Puxou-me a ventania, Segundo círculo do Inferno,
     Rajadas de confetes
     Hálitos diabólicos perfumes
     Fazendo relar pelo corpo da gente
35 Semiramis Marília Helena Cleópatra e Francesca.
     Milhares de Julietas!
     Domitilas fantasiadas de cow-girls,
     Isoldas de pijama bem francesas,
     Alzacianas portuguesas holandesas...
                                                    Geografia

40  Êh liberdade! Pagodeira grossa! É bom gozar!
     Levou a breca o destino do poeta,
     Barreei meus lábios com o carmim doce dos dela...

      (...)

     Carnaval ...
45 Porém nunca tive intenção de escrever sobre ti...
     Morreu o poeta e um gramofone escravo
     Arranhou discos de sensações...

(ANDRADE, Mario de. Poesias completas. São Paulo & Belo Horizonte: Martins & Itatiaia, 1980.)

 

Texto II

CORDÕES

Oh! abre ala!
Que eu quero passá
Estrela d’Alva
Do Carnavá!

     Era em plena rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertava-se, sufocada. Havia sujeitos
      congestionados, forçando a passagem com os cotovelos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que
      berravam pilhérias. A pletora da alegria punha desvarios em todas as faces. Era provável que do largo de São
      Francisco à rua Direita dançassem vinte cordões e quarenta grupos, rufassem duzentos tambores, zabumbassem
5    cem bombos, gritassem cinqüenta mil pessoas. A rua convulsionava-se como se fosse fender, rebentar de
     luxúria e de barulho. A atmosfera pesava como chumbo. No alto, arcos de gás besuntavam de uma luz de
     açafrão as fachadas dos prédios. Nos estabelecimentos comerciais, nas redações dos jornais, as lâmpadas
     elétricas despejavam sobre a multidão uma luz ácida e galvânica, que enlividescia e parecia convulsionar os
     movimentos da turba, sob o panejamento multicolor das bandeiras que adejavam sob o esfarelar constante
10  dos confetti, que, como um irisamento do ar, caíam, voavam, rodopiavam. (...) Serpentinas riscavam o ar;
     homens passavam empapados d’água, cheios de confetti; mulheres de chapéu de papel curvavam as nucas à
     etila dos lança-perfumes, frases rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos, berros, uivos, guinchos. Um cheiro
     estranho, misto de perfume barato, poeira, álcool, aquecia ainda mais o baixo instinto de promiscuidade. A rua
     personalizava-se, tornava-se uma e parecia, toda ela policromada de serpentinas e confetti, arlequinar o pincho
15  da loucura e do deboche. Nós íamos indo, eu e o meu amigo, nesse pandemônio. Atrás de nós, sem colarinho,
     de pijama, bufando, um grupo de rapazes acadêmicos, futuros diplomatas e futuras glórias nacionais, berrava
     furioso a cantiga do dia, essas cantigas que só aparecem no Carnaval:

Há duas coisa
Que me faz chorá
É nó nas tripa
E bataião navá!

(RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.)

A) Uma dentre as explicações abaixo:

•    Porque o pronome está empregado em mesóclise.
•    Porque o pronome está colocado no meio do verbo.

Reescritura: “Vão se misturar” ou “Vão se fundir”

B) Eu coio nos dedo...
   É bom gozá!



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