
— Este livro (diz o escritor recebendo os originais) é o resultado de um fracasso. É o que eu consegui fazer de um projeto pretensioso que tracei em linhas gerais há uns dez anos ou mais (subtextualmente revelando que aquilo que vinham dizendo seus inimigos era verdade) e no qual mexi apenas algumas vezes nesse tempo todo, entravado pela falta de tempo, pelo lazer, pela preguiça, pelo sei lá será que vale a pena e também por ser vencido cada vez que metia a mão na massa (modestamente diminuindo-se ante o projeto, que afinal era seu, e quantos arquitetos há por aí famosos só pelos projetos não realizados?).
— Sei (diz o amigo). Estou entendendo o que você quer dizer. O livro pode ser considerado ainda não acabado (observou que o escritor reparava naquele não acabado e sabia que o assunto voltaria sutilmente introduzido) ou acabado, tanto faz. Você poderia estender infinitamente a segunda parte ou deixar como está. É isso.
— E não é. O fracasso que eu digo está no miolo, que não existe. O livro se dividia originalmente em três livros separados: Antes da Festa, A Festa e Depois da Festa. Acho que Ieronimus Bosch tem muito que ver com isso. (Sorriu porque tinha inventado aquilo na hora e ficou parecendo que Bosch tinha sido o ponto de partida do trabalho — uma mentira; mas verdade, se olhasse agora à distância seu projeto.) Depois da Festa seria o inferno do tríptico. Mas então, como eu ia dizendo: falta a festa.
— Sei, sei. É (considerou o amigo), como concepção fica mais redondo.
— Eu cheguei à conclusão de que o livro existe sem a parte do meio, mas isso não me impede de enxergar a fissura. É claro que eu não vou deixar o leitor perceber isso. Mas me incomoda.
ÂNGELO, Ivan. A festa. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2007. p.187-188.
No trecho acima, as características mais evidentes do romance de Ivan Ângelo são:
TEMPO NA QUESTÃO
00:00:00
Meu Desempenho
Literatura Teoria Literária
Total de Questões: ?
Respondidas: ? (0,00%)
Certas: ? (0,00%)
Erradas: ? (0,00%)
Somente usuários cadastrados!