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São Paulo INSPER 2012.2 Questão: 4 Português Morfologia Substantivo 

Quem ri por último ri Millôr

Eu  tinha  15  anos,  havia  tomado  bomba,  era  virgem  e  não  via,  diante  da minha  incompetência 
para com o sexo oposto, a mais remota possibilidade de reverter a situação.
Em  algum momento  entre  a  oitava  série  e  o  primeiro  colegial,  todos  os meus  colegas  haviam  adotado roupas diferentes, gírias, trejeitos ao falar e ao gesticular, mas eu continuava igual – era como  se  houvesse  faltado  na  aula  em  que  os  estilos  foram  distribuídos  e  estivesse  condenado  a  viver  para sempre numa espécie de limbo social, feito de incertezas, celibato e moletom.
O  mundo,  antes  um  lugar  com  regras  claras  e  uma  razoável  meritocracia,  havia  perdido  o  sentido:  os  bons  meninos  não  ganhavam  uma  coroa  de  louros  –  nem  ao  menos,  vá  lá,  uma  loura coroa –, era preciso acordar às 6h15 para estudar química orgânica e os adultos ainda queriam me  convencer de que aquela era a melhor fase da vida.  
Claro, observando-os, era óbvia a razão da nostalgia: seres de calças bege e pager no cinto, que gastavam  seus  dias  em  papinhos  de  elevador,  sem  ambições  maiores  do  que  um  carro  novo,  um requeijão com menos colesterol, o nome na moldura de funcionário do mês e ingressos para o Holiday on Ice no fim de semana.  
Em  busca  de  algum  consolo,  me  esforçava  para  bater  o  recorde  jamaicano  de  consumo  de  maconha, mas, em vez de ter abertas as portas da percepção – ou o que quer que fizesse com que meus  amigos se divertissem e passassem meia hora rachando o bico, sei lá, de um amendoim –, só via ainda  mais escancaradas as portas da minha inadequação. Foi então, meus caros, que eu vi a luz - e a luz veio  na forma de um livro; "Trinta anos de mim mesmo", do Millôr Fernandes.  
A  primeira  página  que  eu  abri  trazia  um  quadrado  em  branco,  com  a  seguinte  legenda:  "Uma  gaivota branca,  trepada sobre um  iglu branco, em cima de um monte branco. No céu, nuvens brancas  esvoaçam  e  à  direita  aparecem  duas  árvores  brancas  com  as  flores  brancas  da  primavera".  Logo  adiante  estava  "O abridor de  latas",  "Pela primeira  vez no Brasil um  conto  inteiramente  em  câmera  lenta"  –  narrando  um  piquenique  de  tartarugas  que  durava  uns  1.500  anos.  Mais  pra  frente,  esta  quadra: "Essa pressa leviana/ Demonstra o incompetente/ Por que fazer o mundo em sete dias/ Se tinha  a eternidade pela frente?".  
Lendo  aquelas  páginas,  que  reuniam  o  trabalho  jornalístico  do  Millôr  entre  1943  e  1973, compreendi que não estava sozinho em meu estranhamento: a vida era mesmo absurda, mas a resposta  mais  lógica para a  falta de sentido não era o desespero, e sim o riso. Percebi, como se não bastasse,  que  se agregasse alguma graça aos meus  resmungos poderia  fazer daquele  incômodo uma profissão.
Dos 19 anos até hoje, jamais paguei uma conta de luz de outra forma. Uma  pena  nunca  ter  conhecido  o  Millôr  pessoalmente,  não  ter  podido  apertar  sua  mão  e agradecer-lhe por haver me sussurrado ao ouvido, quando eu mais precisava escutar, a única verdade que há debaixo do céu: se Deus não existe, então tudo é divertido.

 (Antonio Prata, Folha de S. Paulo, 04/04/2012)

 

Na passagem “... os bons meninos não ganhavam uma coroa de louros – nem ao menos, vá  lá, uma  loura coroa...”, o autor faz um jogo de palavras, cujo sentido está mais bem explicado em:



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