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São Paulo INSPER 2012.2 Questão: 28 Português Interpretação de textos 

A cartomante

HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma  explicação  que  dava  a  bela  Rita  ao  moço  Camilo,  numa  sexta-feira  de  novembro  de  1869, quando este ria dela, por  ter  ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o  fazia por outras palavras.
— Ria,  ria. Os homens  são assim; não acreditam em nada. Pois  saiba que  fui, e que ela adivinhou o motivo  da  consulta,  antes mesmo  que  eu  lhe  dissesse  o  que  era. Apenas  começou  a  botar  as  cartas, disse-me:  "A  senhora  gosta  de  uma  pessoa..."  Confessei  que  sim,  e  então  ela  continuou  a  botar  as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga  isso, Camilo. Se você  soubesse como eu  tenho andado, por  sua causa. Você  sabe;  já  lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo  pegou-lhe  nas mãos,  e  olhou  para  ela  sério  e  fixo.  Jurou  que  lhe  queria muito,  que  os  seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era  imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não  sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois,  foi  supersticioso,  teve um arsenal  inteiro de crendices, que a mãe  lhe  incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação  total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um  só argumento:  limitava-se a negar  tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se  contentes,  ele  ainda mais  que  ela.  Rita  estava  certa  de  ser  amada; Camilo,  não  só  o estava,  mas  via-a  estremecer  e  arriscar-se  por  ele,  correr  às  cartomantes,  e,  por  mais  que  a repreendesse,  não  podia  deixar  de  sentir-se  lisonjeado.  A  casa  do  encontro  era  na  antiga  Rua  dos Barbonos,  onde  morava  uma  comprovinciana  de  Rita.  Esta  desceu  pela  Rua  das  Mangueiras,  na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela.

(Machado de Assis, Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II)


Todas as seguintes afirmativas podem ser confirmadas pela leitura do texto, EXCETO



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