
Se apresentar problema mecânico, trem de ferro descarrila. O desastre é escândalo e noticiado em todos os meios de comunicação de massa. Em fins de julho, na China, dois vagões de um trem saíram do trilho e despencaram lá do alto do viaduto. 32 pessoas mortas. Semelhante à escultura de José Resende, a foto do acidente é trágica e bela. No entanto, desacreditou em parte um bem montado programa de modernização do país asiático. Quando a obra de artista ambicioso vem bamboleando na bitola estreita da mesmice, ele deve dar-se conta de que a locomotiva que conduz apresenta sérias avarias. O maquinista tem de assumir ou não o risco do acidente regenerador. A assombrar o planejamento do futuro livro, o descarrilamento estético pode revigorar a obra literária à beira da insipidez. Tramas e personagens criados em obras anteriores morrem no desastre anunciado, que gera a fagulha propulsora da criação ousada, cuja escrita será um risco. Em virtude do ramerrame em que a locomotiva vinha sendo conduzida, os olhos do leitor crítico, já tomados pela malícia, serão surpreendidos. O julgamento sairá estampado nos jornais.
(SANTIAGO, Silviano. O Estado de São Paulo, 17/08/2011)
No texto acima, o autor recorre à alegoria para argumentar
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