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São Paulo INSPER 2011.2 Questão: 2 Português Interpretação de textos 

Utilize o texto abaixo para responder às questões.
 
Somos todos comida

Depois da notícia de que, ao  fim de prolongado debate  jurídico,  foi negado por um  tribunal o habeas  corpus impetrado em  favor de um  chimpanzé enjaulado  em  solidão no Zoológico de Niterói,  vieram ao  conhecimento público  outras  providências  judiciais  em  nome  de  animais,  pelo  Brasil  afora.  Isso  está  ficando  interessante. Antigamente, era fácil dizer que os animais não tinham direito nenhum, pois não são sujeitos de direito, não são pessoas,  não  podem  acionar  o  poder  judiciário,  da  mesma  forma  que  não  têm  deveres,  nem  podem  ser interpelados pela justiça. Direitos e deveres são província exclusiva do ser humano e, embora isso não soe bem, um cachorro, por exemplo, não tem o direito de não ser maltratado. O homem é que tem o direito de estabelecer em lei que maltratar um animal é criminoso e de protestar e intervir, quando a lei for descumprida. Mas  vivemos  tempos  mais  complexos  e  em  transformação  quase  frenética.  As  crenças  antes  estabelecidas  e praticamente unânimes hoje mudam o  tempo  todo,  somos  intimidados pelas descobertas da  física quântica, as certezas se tornam indagações e a eventual sensação de que ninguém sabe nada é inevitável. Já há quem sustente que pelo menos os chamados animais superiores, como o mencionado cachorro, têm consciência e emoções. Os donos  de  cachorros  frequentemente  acham  que  estes  pensam,  raciocinam  e  comunicam  seus  pensamentos,  só faltando mesmo  falar. Logo,  têm direitos e  talvez a única coisa que  lhes negue a condição de sujeito de direito seja a circunstância de que a linguagem do cachorro ainda não tem tradutores oficializados. Mas talvez passe a ter  no  futuro  e  alguém  venha  a  dizer  que  o Rex  está  se  sentindo  prejudicado  pelo  seu  dono  e  quer  constituir advogado, para o que aplicará a impressão de sua pata em uma procuração. De  certa  forma,  isso  já  começa  a  acontecer,  como  demonstra  o  caso  do  habeas  corpus  do  chimpanzé.  Seus advogados  inferiram que, sem companhia e encarcerado, o chimpanzé é  infeliz e consegue comunicar que, sim, gostaria  de  ser  transferido  para  uma  moradia  condigna.  Considerando  a  maravilhosa  diversidade  do  ser humano, acho que, a partir desse precedente, viremos a testemunhar ações movidas não somente por cachorros, gatos, peixes de aquário e outros animais domésticos, mas também, antecipo eu, por bois de corte ou por frangos para abate. Não descarto até mesmo a possibilidade de medidas contra o que certamente se chamará "zoofobia", em cuja ilícita prática serão enquadrados, por exemplo, os que usarem as palavras "galinha", "vaca" ou "cadela" com intenção pejorativa. A situação deverá evoluir, em futuro talvez não muito distante, para o estabelecimento dos níveis de consciência das  espécies  e  a  consequente  maior  ou  menor  abrangência  de  seus  direitos.  Não  é  descabido  imaginar  a promulgação de uma Declaração Universal dos Direitos dos Cães, ou do Estatuto do Gato e assim por diante, cada um deles definindo os critérios aplicáveis a cada espécie. É complicado, porque, por exemplo, o direito de latir, certamente parte indissolúvel da liberdade de expressão canina, pode conflitar com o direito ao silêncio de um vizinho humano, o que requererá imaginação e engenho da parte de legisladores e magistrados. Questões  éticas  e  morais,  filosóficas  mesmo,  terão  que  ser  encaradas,  por  mais  incômodas  que  sejam.  O morcego, em muitos casos inofensivo, amante das frutas e polinizador de pomares, pode ser discriminado apenas por  ter,  na  opinião  da  maior  parte  das  pessoas,  uma  aparência  assustadora  ou  repulsiva?  Nos  desenhos animados e historietas infantis, serão adotadas cotas para a inclusão de animais normalmente marginalizados, a exemplo de lacraias, lesmas e piolhos? Aliás, é um direito do piolho infestar cabeleiras improdutivas e sugar uma cesta básica de sangue? Estará sujeito à acusação de omissão de socorro aquele que negar a uma futura mamãe mosquito da dengue o direito a uma picadinha que a ajudará a perpetuar sua espécie?
De propósito, deixei para o fim o direito mais básico, o direito à vida. Sem ele, evidentemente, os outros perdem o sentido. Pensando  nele,  argumentam  os  que  se  negam  a  consumir  qualquer  produto  de  origem  animal. Nossa comida deveria ser apenas a que se consegue obter sem destruir nenhuma vida, nem mesmo, talvez, a das plantas. Nós somos os reis da Criação e não podemos agir como predadores. Nós  somos,  isso  sim, os  reis da presunção.  Imaginamos que a nossa moral  é a moral da natureza,  como  se a natureza  tivesse moral. Na  natureza,  continua  um  alegre  come-come  por  tudo quanto  é  canto,  um  comendo  o outro  afanadamente,  às  vezes  até  de  forma  surpreendente,  como  no  caso  de  um  pelicano  londrino  que  vi  na internet. Esse pelicano, em seu andar balançado na grama de um parque, viu e fingiu nem notar um pombo a seu lado. Mas, num movimento  rapidíssimo, engoliu o pombo, que  ficou  se agitando dentro daquele papo enorme, sem chance de escapar. Se as pessoas presentes à cena fossem do tamanho de pombos, o pelicano sem dúvida as comeria também, porque é assim a natureza. Nós achamos que somos os grandes comedores, só porque, do nosso ponto  de  vista,  ocupamos  o  topo  da  cadeia  alimentar. Ocupamos  nada. Cada  um  de  nós, mesmo  os  que  não portam parasitas, é hospedeiro de uma infinidade de "ecossistemas", para não falar nos muitos animais que, por exemplo,  vivem  do  sangue  de  mamíferos,  inclusive  nosso.  Nós  somos  os  favoritos  de  nós  mesmos,  não  da natureza.  Nossos  corpos,  biodegradáveis  como  são,  para  outras  espécies  não  passam  de  simples  comida  e, homens, bichos ou plantas, a Terra acabará digerindo todos nós.

(RIBEIRO, João Ubaldo. O Estado de S.Paulo, 01/05/2011.)

 

 
De acordo com as ideias apresentadas no texto, pode-se inferir que o autor



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