
REDAÇÃO
Proposta 1 – Carta argumentativa
A carta argumentativa é um gênero que atende a diversos propósitos comunicativos, como opinar, elogiar, reclamar, reivindicar, entre outros. A argumentação e a interlocução presentes nesse texto têm por finalidade convencer o interlocutor sobre determinado ponto de vista. Escolha uma das entrevistadas no texto 3 para dirigir-lhe uma carta argumentativa, apresentando uma opinião contrária à que ela defende. No caso de você considerar a palmadinha como um recurso educativo, enderece-a a Margarida Marques; caso considere que esse recurso é uma violência legitimada, dirija-se a Denise Dias, sempre considerando a temática A palmadinha em discussão: recurso educativo ou violência legitimada? e as ideias contidas nos textos presentes na coletânea para expor os argumentos e contra-argumentos de sua carta. Apesar de ser uma carta, você não deve assiná-la.
Proposta 2 – Artigo de opinião
O artigo de opinião é um texto de caráter expositivo-argumentativo. Frequentemente encontrado em jornais e revistas, esse texto traz a interpretação, análise ou opinião de quem escreve o artigo sobre determinado fato, assunto ou tema de relevância. O objetivo é convencer o leitor a aceitar uma ideia, mudar uma atitude e adotar uma postura. Escreva um artigo de opinião para um jornal ou revista, apresentando uma reflexão crítica, a partir da análise de dados da realidade, sobre o tema: A palmadinha em discussão: recurso educativo ou violência legitimada? Lembre-se de que os argumentos e contra argumentos serão fundamentais para permitir a construção de uma análise crítica dos dados obtidos na coletânea, bem como a interpretação das ideias nela contidas.
Proposta 3 – Conto
O conto tradicionalmente é definido como uma narrativa curta que apresenta narrador, personagens, tempo, espaço e enredo. Esse tipo de narrativa constrói uma história focada em um conflito único e apresenta o desenvolvimento desse conflito. Para produzir um conto, imagine que Zezé, a personagem apresentada no texto 6, tenha crescido e se tornado pai. Aos seis anos, seu filho pratica uma brincadeira semelhante à que ele praticou na mesma idade e Zezé é chamado a corrigi-lo. Na posição de pai, como a personagem reagiria diante dessa situação? Ao refletir sobre sua própria infância, que recursos Zezé utilizaria para educar o filho? Para ele, a palmadinha seria apenas um recurso educativo ou uma violência legitimada pela sociedade? O desfecho de seu conto deve apresentar uma solução para o conflito estabelecido.
Tema:
A palmadinha em discussão: recurso educativo ou violência legitimada?
COLETÂNEA
1. Palmada no centro do debate
por Sérgio Henrique Santos
Um assunto polêmico poderá voltar ao debate nacional este mês de dezembro: a condenação da palmada na educação dos filhos. Nos próximos dias, uma comissão especial da Câmara dos Deputados deverá tomar uma decisão a respeito do projeto de lei 7.672/10, a chamada Lei da Palmada, que proíbe o uso da força física para disciplinar ou punir crianças e adolescentes. A proposta deverá mudar alguns artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e foi proposto pelo governo ainda na gestão do ex-presidente Lula. Caso aprovada, os pais que baterem nos filhos serão encaminhados para programas comunitários de proteção à família, tratamento psicológico ou psiquiátrico e cursos ou programas de orientação. Na mais branda penalidade, poderão receber uma advertência. A educadora Cláudia Santa Rosa, do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), afirma que o hábito de bater nos filhos provoca danos psíquicos e que já ouviu todo tipo de depoimento sobre o assunto, inclusive de pessoas que disseram que as palmadas ou até formas mais agressivas, como uso de cinto, foram boas para sua criação. "Hoje essas pessoas afirmam que aquilo foi positivo. Mas também ouço pessoas que dizem que nunca precisaram apanhar dos pais. Na minha experiência como educadora de mais de 20 anos na escola, vejo que a criança que apanha é potencializada a querer bater nas outras. Quase sempre nas mais frágeis que ela. A criança que apanha busca repetir a agressão que recebe nos colegas mais frágeis". A maioria dos especialistas afirma que os limites precisam existir, mas sem precisar bater. Uma alternativa é fazer sanções com coisas ligadas ao prejuízo que ela causou, a começar colocando horários para cada tarefa do dia. A educadora Cláudia Santa Rosa exemplifica: "Se a criança brinca no horário em que deveria estar fazendo uma tarefa da escola, os pais podem colocar uma sanção, cessando o direito de assistir à TV ou de usar o brinquedo que a fez deixar de executar a tarefa".
Disponível em: <http://www.diariodenatal.com.br/2011/12/13/cidades. Acesso em: 13 dez. 2011. [Adaptado].
2. Crianças e adolescentes, sujeitos de direitos
por Teresa Surita*
Proibir os tratamentos cruéis na educação de crianças e de adolescentes será mostra de que efetivamente
desejamos tratá-los como seres humanos.
Bater não educa e é uma violação dos direitos humanos. O uso de força física e de atos degradantes tem o efeito
perverso de fragilizar os vínculos de autoridade e afeto, muito mais do que corrigir pedagogicamente condutas
desviantes.
É consenso que crianças e adolescentes devem ser educados e protegidos; que o diálogo é melhor que o conflito;
que as experiências na infância determinam a personalidade; e que maltratar crianças é um abuso e é desproporcional.
Mas, ao mesmo tempo em que vemos crianças e adolescentes como seres humanos e portadores de direitos,
toleramos que sejam agredidos. [...] Nos últimos meses, foi debatido intensamente o projeto de lei que propõe a proibição do uso de castigos corporais ou tratamentos cruéis ou degradantes na educação de crianças e adolescentes, chamado por alguns de “Lei da Palmada”.
Após ouvir especialistas, governo e sociedade, apresentamos um substitutivo ao projeto de lei nº 7.672/10,
aperfeiçoando-o. [...]. Não é proposta a intervenção do Estado na família ou a invasão dos lares por forças policiais, mas a educação para o não uso de qualquer forma de violência [...].
A expressa proibição de castigos corporais e tratamentos cruéis ou degradantes na educação de crianças e adolescentes atende à Convenção dos Direitos da Criança e será demonstração de que desejamos tratá-los, efetivamente, como seres humanos e sujeitos de direitos.
*Teresa Surita é deputada federal (PMDB-RR) e relatora do projeto de lei nº 7.672/10.
Disponível em: <http://www.teresasurita.com>. Acesso em: 13 dez. 2011.
3. Você é favorável à proibição da palmada?
Sim - Somos contra a violência. A violência incomoda, gera desconforto. No entanto, é comum escutarmos que, em relação à educação dos filhos, justifica-se o uso de castigo físico ou de humilhações. O castigo físico contra os filhos é uma forma de violência legitimada, socialmente aceita. A ideia de que ela se dá no âmbito privado faz com que a sociedade se omita em relação à violência que cotidianamente milhares de crianças sofrem, de forma solitária, e que, provavelmente, será extravasada em outro espaço, muitas vezes a escola. Pesquisa Datafolha, realizada em 2010, aponta que 75% das crianças e adolescentes no Brasil sofrem violência praticada por pais e responsáveis. Educar é um desafio, por isso Paulo Freire nos diz que não educamos o outro, mas que nos educamos uns aos outros. Educar é sentir-se responsável em transmitir conhecimentos, valores. Mas, também, é abertura para a possibilidade de aprender, assumir erros, pedir desculpas. Por isso, o projeto de lei que dispõe sobre a alteração das Leis 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente) e 10.406/02 (Novo Código Civil), “estabelecendo o direito da criança e do adolescente a não serem submetidos a qualquer forma de punição corporal, mediante a adoção de castigos moderados ou imoderados, sob a alegação de quaisquer propósitos, ainda que pedagógicos”, é importante, pois abre a possibilidade de a sociedade discutir o tema, descortina o costume tão naturalizado de achar que é justificável aplicar pancada, palmada, puxão de orelha. [...] A mentalidade que acredita que castigo físico educa justificou o uso da palmatória na sala de aula. Hoje a sociedade não aceita um procedimento dessa natureza como parte do processo pedagógico. Isso demonstra que conceitos são construídos socialmente e, portanto, podem mudar. Margarida Marques, membro da coordenação do Cedeca e do Conselho de Leitores do Jornal O Povo. Não - A palmada é um dos recursos que os pais têm com seus filhos. Não estamos falando sobre espancamentos, estamos falando sobre “aquele tapinha” que muitas crianças precisam de vez em quando. Os pais devem conversar com seus filhos, tentar fazer com que eles reflitam, mas a palmada muitas vezes é necessária sim. [...] A palmada apenas, em si, não pode trazer traumas para as crianças. A surra, sim. A violência moral também. Xingar a criança, ter reações abruptas, dizer palavras pesadas como “por que eu tive você?” ferem muito mais do que uma palmada. Ela dói, claro, mas a dor no bumbum passa, dura apenas segundos. A dor devido a uma agressão verbal fica na alma. Os pais não devem descontar nas crianças o estresse que eles vivem. A palmada dada com fúria é dada em descontrole. Os pais devem ter equilíbrio ao aplicá-la. E qualquer pessoa em equilíbrio mental sabe discernir entre uma palmada e um espancamento. [...] É necessário ter em mente que crianças são crianças. Elas aprontam, questionam. Hoje em dia os pais não se colocam com o poder que deveriam e passaram tal poder aos filhos. [...] Os pais estão criando monstros e ninguém está fazendo nada. Querem falar bonito ao dizer que o Brasil tem/terá uma Lei semelhante à da Suécia, mas na prática a criança brasileira está longe de deixar de ser violentada. Basta frequentar as ruas durante a noite. Denise Dias, terapeuta infantil, pedagoga e autora do livro Tapa na bunda.
Disponível em <http://www.opovo.com.br/app/opovo/.../12/../.>. Acesso em: 13 dez. 2011.
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5. Uma palmada bem dada
Cecília Meireles
É a menina manhosa
Que não gosta da rosa,
Que não quer a borboleta
Porque é amarela e preta,
Que não quer maçã nem pera
Porque tem gosto de cera,
Porque não toma leite
Porque lhe parece azeite,
Que mingau não toma
Porque é mesmo goma,
Que não almoça nem janta
porque cansa a garganta,
Que tem medo do gato
E também do rato,
E também do cão
E também do ladrão,
Que não calça meia
Porque dentro tem areia
Que não toma banho frio
Porque sente arrepio,
Que não toma banho quente
Porque calor sente
Que a unha não corta
Porque fica sempre torta,
Que não escova os dentes
Porque ficam dormentes
Que não quer dormir cedo
Porque sente imenso medo,
Que também tarde não dorme
Porque sente um medo enorme,
Que não quer festa nem beijo,
Nem doce nem queijo.
Ó menina levada,
Quer uma palmada?
Uma palmada bem dada
Para quem não quer nada!
MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. 9 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.
6.
No começo, por cerimônia ou porque queria impressionar aos vizinhos, me comportava bem. Mas uma tarde recheei a meia preta de mulher. Enrolei ela num barbante e cortei a ponta do pé. Depois onde tinha sido o pé peguei uma linha bem comprida de papagaio e amarrei. De longe, puxando devagarzinho parecia uma cobra e no escuro ela ia fazer sucesso.
De noite todo mundo tratava de sua vida. Parecia que a casa nova mudara o espírito de todos. Havia uma alegria na família que não se via há muito tempo.
Fiquei quietinho no portão esperando. A rua vivia da pouca iluminação dos postes e as cercas de altos crótons
criavam sombras pelos cantos. [...]
Pronto! Lá vinha uma mulher. Trazia uma sombrinha debaixo do braço e uma bolsa pendurada na mão. Dava até
para ouvir o barulho do tamanco batendo os saltos na rua.
Corri a me esconder no portão e experimentei o puxador da cobra. Ela obedeceu. Estava perfeita. Então eu me
escondi bem escondidinho atrás da sombra da cerca e fiquei com o puxador entre os dedos. O tamanco vinha perto, vinha perto, mais perto ainda e zúquete! Comecei a puxar a linha da cobra. Ela deslizou devagar no meio da rua.
Só que eu não esperava aquilo. A mulher deu um grito tão grande que acordou a rua. Jogou a bolsa e a sombrinha pro alto e apertou a barriga sem deixar de berrar.
— Socorro! Socorro!... Uma cobra, minha gente. Me acudam.
As portas se abriram e eu soltei tudo, disparei pelo lado da casa, entrei na cozinha. Destampei depressa o cesto de roupa suja e me meti dentro cobrindo o cesto com a tampa. Meu coração batia assustado e continuava ouvindo os gritos da mulher.
— Ai, meu Deus, que eu vou perder o meu filho de seis meses.
Aí eu já não fiquei só arrepiado, comecei a tremer.
Os vizinhos levaram ela para dentro e os soluços e as queixas continuavam.
— Não me agüento, não me agüento. E logo cobra que eu tenho pavor.
— Tome um pouco de água de flor de laranjeira. Acalma. Fique calma porque os homens foram atrás da cobra com pedaços de pau, machado e um lampião para alumiar.
Que confusão danada por causa de uma cobrinha de pano! Mas o pior é que o povo lá de casa também tinha ido
espiar. Jandira, Mamãe e Lalá.
— Mas não é cobra, minha gente. É uma meia velha de mulher.
No meu medo esqueci de retirar a “cobra”. Estava frito.
Atrás da cobra tinha a linha e a linha vinha de dentro do quintal.
Três vozes conhecidas falaram ao mesmo tempo: — Foi ele!
A caçada agora não era da cobra. Olharam debaixo das camas. Nada. Passaram perto de mim, e eu nem respirava.
Foram do lado de fora espiar na casinha.
Jandira teve uma idéia.
— Eu acho que já sei!
Levantou a tampa do cesto e eu fui erguido pelas orelhas até a sala de jantar.
Mamãe me bateu duro dessa vez. O chinelo cantou e eu tive mesmo que berrar para diminuir a dor e ela parar de me
bater.
— Pestezinha! Você não sabe como é duro carregar um filho de seis meses na barriga.
Lalá comentou irônica:
— Estava demorando muito ele estrear a rua!
— Agora, para a cama, seu danado.
Saí coçando a bunda e me deitei de bruços. Sorte foi Papai ter ido jogar manilha. Fiquei no escuro engolindo o resto
do choro e achando que a cama era a coisa melhor para sarar uma surra. [...]
Quando todos tinham chegado para o jantar, Mamãe deu falta de mim.
— Cadê Zezé?
— Está deitado. Desde cedo que ele queixa de dor de cabeça.
Eu escutava embevecido [...] Gostava de estar sendo o assunto. Foi quando Glória resolveu tomar a minha defesa.
Fez uma voz queixosa e ao mesmo tempo acusativa.
— Acho que todo mundo anda batendo nele. Ele hoje estava todo moído. Três surras é demais.
— Mas é uma pestezinha. Só fica quieto quando apanha!
— Vai dizer que você também não bate nele?
— Muito difícil. Quando muito, puxo as suas orelhas.
Fizeram um silêncio e Glória ainda continuou a me defender.
— Afinal, minha gente, ele ainda não tem seis anos. É levado mas ainda é uma criancinha.
Aquela conversa foi uma felicidade para mim.
VASCONCELOS, José Mauro de. Meu pé de laranja lima. 2 ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975. p. 38-71.
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