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Rio de Janeiro CMRJ - 6o 2012.2 Questão: 9 Português Geral 

 

 

 

No texto “Os meninos morenos”, você viu que o povo que aqui já vivia fez parte da formação do brasileiro, muito antes de os portugueses ou africanos chegarem a essa linda terra. Vamos conhecer um pouco sobre seus traços e sua cultura? 

TEXTO III

Alguns traços da cultura indígena

Cláudio e Orlando Villas Bôas

Os traços da cultura do índio se diferenciam dos nossos. Numa comunidade elas são brandas, mansas, sem castigo. O índio é uma criatura livre. Ninguém determina o que ele deve fazer. Ele é dono dos seus atos e do seu tempo. O que mantém a unidade tribal é a força da cultura nascida das suas tradições. Ninguém manda em ninguém. Não vivem, como muitos podem pensar, num regime comunal onde tudo é de todos. A propriedade é individual dentro mesmo do grupo familiar. O que é do marido é dele, o que for da mulher é dela. Os pais não castigam os filhos e deles nada exigem. Respeitam-nos. Quando se aponta um menino e pergunta-se ao pai:

– Você está ensinando o seu filho?

– Não.

– Por quê? 

– Eu não sei se ele quer. 

– E, então, como e quando ele vai aprender? 

– À medida que ele for precisando, ele pergunta. Daí eu ensino.

O índio é uma criatura alegre. Quase nada o entristece. Tudo é motivo de graça. Um civilizado na aldeia que quer ser desembaraçado pintando-se como índio, cortando o cabelo igual a ele, pensando que assim o agrada, em verdade provoca risos e comentários. À noite nas redes eles lembram o ocorrido, caçoam e quase sempre com a observação: “Caraíba necatuité” (branco civilizado é bobo).

***

A criança é uma entidade. E como tal deve ser respeitada. Não se há de contrariá-la, assim pensa o índio.

Uma índia fazia caprichosamente umas panelinhas com forma de passarinho, com asinha, rabinho e biquinho. Ao lado, sua filhinha de 4 anos. À medida que a mãe terminava, ela “puf”, com um pedacinho de pau, quebrava. A cena à nossa frente repetiu-se quatro vezes. Sugerimos à índia que parasse para que ela – a criança – não continuasse quebrando. Ela incontinenti respondeu (claro, na sua língua):

– Não posso parar porque ela quer quebrar. Simplificando sugerimos:

– Então não faça o biquinho, a asinha e o rabinho, que são as partes mais demoradas e trabalhosas.

Ela continuou trabalhando e apenas esclareceu:

– Sem rabinho, sem asinha e sem biquinho não é panelinha, e ela quer quebrar panelinha!

Encerrado o assunto, depois da décima primeira a menininha foi embora e a mãe continuou com sua labuta.

VILLAS BÔAS, Cláudio; VILLAS BÔAS, Orlando. Almanaque do sertão: histórias de visitantes, sertanejos e índios. São Paulo: Globo, 1997, p. 213-215 - adaptado.

Vocabulário:

1. Regime comunal – regime em que tudo é comum, é de todos.
2. Incontinenti – sem freios, sem parar.
3. Labuta - trabalho.

Em “A cena à nossa frente repetiu-se quatro vezes. Sugerimos à índia que parasse para que ela – a criança – não continuasse quebrando.”, os sinais de travessão sinalizam

 

 

 



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