
TEXTO I
Potira
Valdeck de Garanhuns
Dois amantes viviam a sonhar
bem felizes curtiam sua terra
mas um dia chegou a triste guerra
e o casal teve que se separar.
O guerreiro partiu para lutar
muito triste pois não era seu plano
a esposa ficou em desengano
coração apertado de sofrer
esperando o amado aparecer
pra cantar um martelo alagoano.
Prometeu que jamais ia chorar
esperando o regresso do amado
e seu pranto1 no peito estagnado2
só com a morte iria derramar.
Todo dia Potira ia olhar
Se seu índio surgia, mesmo insano3
mas o rio revelava seu engano
e Potira voltava para a aldeia
pra sonhar sob a luz da lua cheia
e cantar seu martelo alagoano.
Essa índia sofreu e esperou
o regresso do índio tão querido
quando soube da morte do marido
todo pranto que tinha derramou.
Lá na beira do rio ela ficou
a chorar seu destino tão tirano
mas Tupã o bondoso soberano
transformou suas lágrimas brilhantes
em milhões e milhões de diamantes
e o seu pranto em martelo alagoano.
(Garanhuns, Valdeck de. Mitos e lendas brasileiros em prosa e verso recontados por Valdeck de Garanhuns. Série Folia Popular, 1ª ed., São Paulo: Moderna, 2007.) (Imagem retirada de <http://redescobrindoaalfabetizacao.blogspot.com/2009/08/lenda-dos-diamantes.html>. Acesso em 10/10/2011.)
Vocabulário:
1. pranto – choro
2. estagnado – parado
3. insano – louco
TEXTO II
Além da imaginação
André Melo
Desde muito, muito tempo atrás, os homens criam histórias para tentar compreender as coisas ao seu redor. Por que a Lua possui quatro fases? Como surgiu o guaraná? Se hoje temos o Google para tirar nossas dúvidas, eles contavam apenas com a própria imaginação. E assim nasceram lendas, transmitidas de pai para filho por gerações, até os tempos atuais.
No Brasil, houve uma grande mistura de lendas dos índios, que já viviam aqui, com outras africanas e europeias, trazidas pelos escravos e colonizadores. Alguns personagens ficaram mais conhecidos, como a Cuca e o Saci Pererê, principalmente por sua divulgação na obra de Monteiro Lobato. Mas existem muitas outras, como o Carbúnculo e o Uirapuru (...)
A. S. Franchini, autor do livro As 100 melhores lendas do folclore brasileiro, explica que as lendas brasileiras têm um papel parecido com o da mitologia1 na Grécia Antiga, pois são uma forma de interpretar o mundo. Há milhares de anos, por exemplo, quando uma chuva alagava toda a cidade, os gregos acreditavam que era um castigo dos deuses, chateados com as atitudes dos homens na Terra.
As lendas brasileiras são, de certo modo, a nossa mitologia, já que lidam com divindades2 indígenas e com mitos que falam da nossa nacionalidade. Todas lidam com os mesmos temas, comuns a todas as raças e povos, como amor, morte, sobrevivência, ambição3, generosidade — explica Franchini.
Se você já escutou mais de uma versão sobre uma lenda, não se assuste. Essa é, inclusive, uma de suas características. Por serem transmitidas oralmente, elas assumem diferentes formas de acordo com a época e o lugar.
— Isso não só é natural e inevitável, como vital4 para a sobrevivência das lendas
— diz o autor.
(Texto adaptado de MELLO, André. Globinho, O Globo, sábado 11 de junho de 2011, p.4 e 5).
Vocabulário:
1. mitologia – o conjunto de mitos.
2. divindade – qualidade ou condição de divino; pessoa ou coisa divinizada.
3. ambição – desejo intenso de obter poder, riquezas etc.
4. vital – que é essencial, fundamental.
De acordo com Além da imaginação (texto II), “Desde muito, muito tempo atrás, os homens criam histórias para tentar compreender as coisas ao seu redor.”. Com base nessa afirmação, pode-se dizer que, em Potira (texto I), há a explicação para o surgimento
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