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Rio de Janeiro CP II 1EM 2013.2 Questão: 5 Português Interpretação de textos 

 Texto II

O homem que queria eliminar a memória

Entrou no hospital, mandou chamar o melhor neurocirurgião.

O médico:

— Sim?

— Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro.

— Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar um pedaço do seu cérebro?

— Quero eliminar a memória.

— Para quê?

— Gozado, as pessoas só sabem perguntar: o quê? Por quê? Para quê? Falei com dezenas de pessoas, e todos me perguntaram: por quê? Não podem aceitar pura e simplesmente alguém que deseja eliminar a memória.

— Já que o senhor veio a mim para fazer esta operação, tenho ao menos o direito dessa informação.

— Não quero mais me lembrar de nada. Só isso. As coisas passaram, passaram. Fim! 

— Não é tão simples assim. Na vida diária, o senhor precisa da memória. Para lembrar pequenas coisas. Ou grandes. Compromissos, encontros, coisas a pagar, etc.

— É tudo que vou eliminar. Marco numa agenda, olho ali e pronto.

— Não dá pra fazer isso, de qualquer modo. A medicina não está tão adiantada assim.

— Seria muito melhor para os homens. O dia a dia. O dia de hoje para frente. Entende o que eu quero dizer? Nenhuma lembrança ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado fechado, encerrado. Definitivamente bloqueado. Não seria engraçado? Não se lembrar sequer do que se tomou no café da manhã? E pra que eu quero me lembrar do que tomei no café da manhã?

— Se todo mundo fizesse isso, acabaria a história.

— E quem quer saber de história?

— Imaginou o mundo?

— Feliz, tranquilo. Só de futuro. O dia em vez de se transformar em passado de hoje, mudando-se em futuro. Cada instante projetado para frente.

— Não seria bem assim. Teríamos apenas uma soma de instantes perdidos. Nada mais. Cada segundo eliminado. A sua existência comprovada através do quê?

— Quem quer comprovar a existência?

— A gente precisa.

— Pra quê?

O médico pensou. Não conseguiu responder. O homem tinha-o deixado totalmente confuso. Pediu ao homem que voltasse outro dia. Despediram-se. O médico subiu para os brancos corredores do hospital, passou pela sala de operações. Chamou um amigo.

— Estou pensando em tirar um pedaço do meu cérebro. Eliminar a memória. O que você acha?

— Muito boa ideia. Por que não pensamos nisso antes? Opero você e depois você me opera. Também quero.

(Ignácio de Loyola Brandão. Cadeiras proibidas: contos. Rio de Janeiro: Codecri, 1984, pp. 32-34.)

 


Considerando o texto II, pode-se afirmar que o médico quer convencer o paciente a desistir da operação e, para isso, usa alguns argumentos. Marque a opção que não contém um desses argumentos.



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