
Texto II
O homem que queria eliminar a memória
Entrou no hospital, mandou chamar o melhor neurocirurgião.
O médico:
— Sim?
— Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro.
— Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar um pedaço do seu cérebro?
— Quero eliminar a memória.
— Para quê?
— Gozado, as pessoas só sabem perguntar: o quê? Por quê? Para quê? Falei com dezenas de pessoas, e todos me perguntaram: por quê? Não podem aceitar pura e simplesmente alguém que deseja eliminar a memória.
— Já que o senhor veio a mim para fazer esta operação, tenho ao menos o direito dessa informação.
— Não quero mais me lembrar de nada. Só isso. As coisas passaram, passaram. Fim!
— Não é tão simples assim. Na vida diária, o senhor precisa da memória. Para lembrar pequenas coisas. Ou grandes. Compromissos, encontros, coisas a pagar, etc.
— É tudo que vou eliminar. Marco numa agenda, olho ali e pronto.
— Não dá pra fazer isso, de qualquer modo. A medicina não está tão adiantada assim.
— Seria muito melhor para os homens. O dia a dia. O dia de hoje para frente. Entende o que eu quero dizer? Nenhuma lembrança ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado fechado, encerrado. Definitivamente bloqueado. Não seria engraçado? Não se lembrar sequer do que se tomou no café da manhã? E pra que eu quero me lembrar do que tomei no café da manhã?
— Se todo mundo fizesse isso, acabaria a história.
— E quem quer saber de história?
— Imaginou o mundo?
— Feliz, tranquilo. Só de futuro. O dia em vez de se transformar em passado de hoje, mudando-se em futuro. Cada instante projetado para frente.
— Não seria bem assim. Teríamos apenas uma soma de instantes perdidos. Nada mais. Cada segundo eliminado. A sua existência comprovada através do quê?
— Quem quer comprovar a existência?
— A gente precisa.
— Pra quê?
O médico pensou. Não conseguiu responder. O homem tinha-o deixado totalmente confuso. Pediu ao homem que voltasse outro dia. Despediram-se. O médico subiu para os brancos corredores do hospital, passou pela sala de operações. Chamou um amigo.
— Estou pensando em tirar um pedaço do meu cérebro. Eliminar a memória. O que você acha?
— Muito boa ideia. Por que não pensamos nisso antes? Opero você e depois você me opera. Também quero.
(Ignácio de Loyola Brandão. Cadeiras proibidas: contos. Rio de Janeiro: Codecri, 1984, pp. 32-34.)
Segundo a fala do médico, personagem do texto II, a memória é importante para a história. Transcreva desse texto uma frase da qual se depreende essa importância.
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